RIOBALDO & DIADORIM

GRANDE SERTÃO: VEREDAS, SEUS ANALISTAS E SEUS INTÉRPRETES. UM GUIA PARA O LEITOR DE UMA DAS OBRAS-PRIMAS DA LITERATURA UNIVERSAL DE TODOS OS TEMPOS. E CORPO DE BAILE. E AS PRIMEIRAS, E AS ÚLTIMAS TODAS ESTÓRIAS.

17.11.08

 

NO GRANDE SERTÃO


Fomos. Fui. Para o recanto duma janela, nesse comenos. A pra efetuar fogo. A ordem não era-de? Desígnios esses, de Zé Bebelo. Sucinto em cada puxada de gatilho, relembrei o dito do Lacrau: que Zé Bebelo o que era. Sendo que uma criatura, só a presença, tira o leite do medo de outra. Aí, Diadorim mesmo, que era o mais corajoso, sabia tanto? O que o medo é: um produzido dentro da gente, um depositado; e que às horas se mexe, sacoleja, a gente pensa que é por causas: por isto ou por aquilo, coisas que só estão é fornecendo espelho. A vida é para esse sarro de medo se destruir; jagunço sabe. Outros contam de outra maneira.

A ordem de se jantar, o Jacaré veio avisando. Comi a pura farinha. Tomei mais. — “Os soldados?” — era o que mais se perguntava. Tinham esbarrado tiroteio, a gente não escutava o costurar. Medido nas suas partes, o dia estava gastado; beirava o prazo da decisão. Escogitei. — “Diadorim, esta noite, no começo da hora, você vem para perto, me assiste, comigo.” Mas Diadorim contradisse de querer saber que modos meus que eram, as tantas espécies. Ainda pensei no Alaripe. A ele me fiz. — “A de paga, amigo. Ora veja...” — o Alaripe divertido me achou. De qual deles, agora, eu ia cobrar e arrecadar? Acauã ou o Mão-de-Lixa, ou Diodolfo? Todos seguiam caminho de seus costumes; no novo não conseguiam de se nortear. Três tristes de mim! Ali eu era o indêz? Noção eu nem acertava, de reger; eu não tinha o tato mestre, nem a confiança dos outros, nem o cabedal de um poder — os poderes normais para mover nos homens a minha vontade. Mesmo meu braço do ferimento, que já estava muito melhorado por si, aí tornou a doer, no injusto, em tanto que isto se passava. Adrede, no retorcer do vento, apurei o ruto de nossos cavalos, os ossos de feder, só a lástima. Será que eu tivesse por dever de peitar pessoas? Ah, nos curtos momentos, eu não ia explicar a eles coisas tão divagadas, e que podiam mesmo não vir a ter fundamento nenhum. Porque — eu digo ao senhor — eu mesmo duvidava. Tivesse de vigiar no estreito Zé Bebelo, atravessar o projeto dele se o caso fosse, que modo que eu ia enfrentar um homem assim? Ah, o julgamento no Sempre-Verde tinha sido relaxado em brando — para valer preços. Zé Bebelo, sozinho por si, sem outro sobrecalor de regimento, servisse para governar os arrancos do sertão? “Não me importo... Não me importo...” — eu quis, com outras palavras tais. Ali eu não tinha risco. Ali alguém ia me chamar de Senhor-meu-muito-rei? Ali nada eu não era, só a quietação. Conto os extremos? Só esperei por Zé Bebelo: — o que ele ia achar de fazer, ufano de si, de suas proezas, malazarte.


João Guimarães Rosa
em Grande Sertão: Veredas
José Olympio. Rio de Janeiro.
1ª edição. 1956.





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