GRANDE SERTÃO: VEREDAS, SEUS ANALISTAS E SEUS INTÉRPRETES. UM GUIA PARA O LEITOR DE UMA DAS OBRAS-PRIMAS DA LITERATURA UNIVERSAL DE TODOS OS TEMPOS. E CORPO DE BAILE. E AS PRIMEIRAS, E AS ÚLTIMAS TODAS ESTÓRIAS.
5.7.09
FRASES DO GRANDE SERTÃO
Todos estão loucos, neste mundo? Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente — o que produz os ventos.
Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor.
Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.
De a de lado. Todos eles passarem, tropeando, nós todos, o rumor constante dos cascos. Cavalo, cavalaria! cortejo que fazia suas voltas, pelos ermos, pelos ocos, pelos altos, a forma duma mistura de gente amontada, uma continuação grande, solevando para adiante o aprumo de meus homens, os chapéus deles quase todos bem engraxados com sebo de boi e nata de leite, em ponta os canos dos rifles de guerra, a tiracol. Com qual seguimento? Só o que esperava a gente, era o pouso para jantar; passeata para a estrela-da-tarde. Mas, do que um falava, outro mal ouvia e ria; do que esses se riam, outros ainda falavam. Prosapeavam. Me prazia. Me prazia o ranger o couro das jerebas, aquele chio de carne em asso. A poeira avermelhava e branqueava: poeiras que punham o vento mais áspero. Uns homens em cavalos e armas. Quem visse, fuga fugia, corria: tinham de temer, vigiando com seus olhos escondidos no mato em beiras de estrada. Até os bichos, do cerradão, que escutam o começo de tudo, de seu longe e de seu perto, e logo sabem esperar, ocultos no rareamento, assim não se viam, nenhuns, não se achavam; os pássaros sempre já tinham revoado. Ah, não, eu bem que tinha nascido para jagunço. Aquilo — para mim — que se passou: e ainda hoje é forte, como por um futuro meu. Eu estou galhardo. Naquilo, eu tinha amanhecido. Comi carne de onça? Esquipando, eu queria que a gente entrasse, daquele jeito, era em alguma grande verdadeira cidade.
Só às vezes, em repente de receio, eu ainda olhei em vão — com as presenças de Zé Bebelo me cismava. Se o que sei. Com um arranco de freio, raciocinado. Mas, dando de rédeas sem descanso, derrubei dos ombros aquele meu costume, Zé Bebelo terminara. Só os meus homens. Escutava, olhava — e eram aqueles: que muitas estrepolias ainda iam decerto agir, e muita má gente matar. Aos dez e dezes, digo, afirmo que me lembro de todos. Esses passam e transpassam na minha recordação, vou destacando a contagem. Nem é por me gabar de retentiva cabedora, nome por nome, mas para alimpar o seguimento de tudo o mais que vou narrar ao senhor, nesta minha conversa nossa de relato. O senhor me entende? A mesmice dos cabras jagunços — no contemplar a cavalhada — no passo, os animais dando dos quartos, comuns assim, que não fazem penachos, que não tiram arredondamentos da magreza. Os filhos nascidos de distritos de lugares diversos, mas agora debaixo da minha estima completa, dever de coração enérgico. Até os capiaus e os catrumanos copiavam o comportamento, uns amontados, outros restantes apressados mesmo a pé, e iam pegando o exato. Até o catrumano Teofrásio, em seu jegue, que, como prestável jumento, cumpria bem seu ir, desde que tinha companhia de outros animais. E o Guirigó e o Borromeu, eu meando os dois, ao alcance de qualquer minha mão. Sempre, mesmo como sempre. Mas, um, era Diadorim — montado à baiana, gineta, com estribos curtos e rédea muito ponderada, bridando bem, em seu argel travado, às upas: cavalo bulideiro, cavalo de olhos pretos conforme como a noite — Diadorim, que era o Menino, que era o Reinaldo. E eu. Eu? Nos estribos de ferro, freio de ferro, silha forte e silha mestra — e o par de coldres! Assaz, então, cantaram:
Olererê, Baiana, eu ia e não vou mais... Eu faço que vou lá dentro, oh Baiana, e volto do meio p’ra trás...
Ao demais eu ouvi, soturno sorridente.
João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas José Olympio. Rio de Janeiro. 1ª edição. 1956.
O autor fala de uma poética dos sons glossolálica, portanto, silenciosa, da qual nada se pode afirmar discursiva e linearmente: uma poética essencialmente mágica: “espécie de ABRACADABRA mágica, a respeito da qual que nem mesmo o nosso Soropita quererá explicar nada”.
Há, em sua escritura, uma ordenação rítmica e secreta da língua: “música subjacente”. Subjacente: do latim sub — “sob, no fundo de, debaixo de” — e jazer, “estar deitado, estendido, [...], estar morto ou como morto” (CUNHA, 1998). Há uma música sob, uma música depositada no fundo, debaixo de algo deitado, estendido, morto ou como morto — “o leitor deve ser despertado de sua inércia mental, da preguiça e dos hábitos”. Uma música que anima o sentido, subverte-o para encontrar sua raiz primeira, e garantir uma “maior expressividade”.
“A maneira-de-dizer tem de funcionar, a mais, por si”, diz o escritor. E quando as palavras se despregam de seu sentido útil, quando buscam ensinar outras, novas, maneiras de “sentir e de pensar”, elas inventam-se como música. Fazem-se poesia.
C. M. Bowra, um dos pioneiros nos estudos de sons nas culturas ditas primitivas, diz que uma vez que as palavras nasçam para acomodarem-se à música, elas revestem-se de qualidades que vão além dos seus aspectos ordinários. Elas têm qualidades melódicas, rítmicas, e possuem o poder de evocar.
Música e poesia estão mais próximas do que atualmente se supõe. A origem e história dessas duas artes as legitima como irmãs. Na Grécia Antiga, a palavra usada para dizer poeta como cantor (aiodos), é mais antiga do que a que o descreve como fazedor (poietes). Assim como mousiké é um termo usado para descrever dança, melodia, poesia e ensino primário.
Já nessa época, os pensadores gregos discutiam a diferença entre falar e cantar. Mas como uma diferença de grau, não de espécie. Aristoxenos (discípulo de Aristóteles que escreveu por volta do ano 320 a.C.) faz uma distinção entre o movimento contínuo da voz na fala (fala ordinária, não recitação poética) e na canção . Enquanto que Dionysius de Halicarnasus (séc. I a.C.) dizia que a distinção entre oratória e música é simplesmente de grau.
A relação entre música e poesia também pode ser apreciada num dos maiores poemas da Antigüidade. A Ilíada, de Homero, é uma unidade musical. Musicalidade esta que permitia a conservação de informações numa cultura marcadamente oral, graças aos ritmos mnemônicos criados.
Gabriela Reinaldo em Uma Cantiga de se Fechar os Olhos mito e música em Guimarães Rosa
Annablume. São Paulo. 2005.
Aonde é que jagunço ia? À vã, à vã. Tinha minha vontade, de estar em toda a parte. Mas, quadrando que primeiro, mais para o norte: para o Chapadão do Urucuia, aonde tanto boi berra. Que eu recordava de ver o rio meu — beber em beira dele uma demão d’água... Ah, e essas estradas de chão branco, que dão mais assunto à luz das estrelas. Eu pensei, eu quis. E o Hermógenes, os Judas? Ara, inimigo, o senhor dê um passo, em que rumo qualquer, lá em sua frente o senhor encontra o mau... Eu não tinha todo tempo? Safra em cima, eu em minha lordeza. Mesmo deitado, eu sentia que estava caminhando, galopando. Quando a madrugada bateu as asas, eu já estava abotoando a espora. Outra vez, eu digo: tem botim novo flote, e chinelo velho redomão. O dia ia ser lindo de leveza! — pelas beiradas do céu. Forramos o estômago; e saímos, deslizando com a manhã, com o merujo do orvalho. O que eu via: alto de mata e além! As coisas todas eu pensava, e nada nenhuma não me sombreasse. Algum medo não palpitava frio por detrás de meus olhos; e, por via disso, eu de todos era o chefe, mesmo em silêncio singular. Conforme assim, chegamos, no Pé-da-Pedra, fazenda da Barbaranha. Em perto de sete léguas. E o que aí foi, lhe conto.
Ao entrementes, eu achei graça: em que o Alaripe, João Goanhá, Marcelino Pampa, João Concliz, e mesmo Diadorim, e outros mais velhos não carecessem de formar conselho. As lérias. Meu direito era contrariar as regras todas do chefe que antes fora; para mim, só mesmo o que servia era à solta a lei da acostumação. Aí, não viessem me dizer que a gente estava só com três dias de farinha e carne-seca. Toleima. Todo boi, enquanto vivo, pasta. Razão e feijão, todo dia dão de renovar. A coragem que não faltasse; pra engulir, a polpa de buriti e carnes de rês brava. Às léguas, eu indo, eles me seguindo. — “Tu está vendo o tamanho do mundo, Guirigó: Que é que tu acha de maior boniteza?” Assim eu perguntei, àquele sacizinho de duas pernas, que preto reluzente afora os graúdos olhos brancos, me remedindo, da banda de minha mão canhota sempre viesse, encarapitado sobre seu alto cavalo. E ele, a cuja senvergonhice: — “De todas as coisas, boniteza melhor é dessa faquinha enterçada, de metal, que o senhor travessa na cintura...” Segundo tinha botado desejo no meu punhal puxável de cabo de prata, o dioguim. — “A pois: no primeiro fogo que se der, se tu não abrir boca e choro bué, por medos, a dita faca tu ganha, presenteada...” — eu prometi. A falta de mantimentos, por isso eu ia encurtar rédeas, travar o passo? A toleima. A outra receita que descumpri, era a de repartir o pessoal em turmas. Cautelas... Que não. Eu fosse ter cautela, pegava medo, mesmo só no começar. Coragem é matéria doutras praxes. Aí o crer nos impossíveis, só. — “Seo Borromeu, está gostando destes Gerais, hem seo Borromeu?” — ao cego, da minha outra banda, perguntei, por desfrute. — “Ah, Chefe: é sempre amanhecendo manhã, e aqui a gente merece tudo — vento que não vareia de ser... Mas vento que vem dos amáveis...” — ele me respondeu. — “...O que não vejo, não devo; não consumo...” — continuou respondendo.Ele gostava de conversar, mas também preparava no silêncio. Ia sacolejando em cima da sela do animal, noutra quietação diversa. Podia dar conselho? — “Arte de jagunço, meu Chefe: Isto é ofício bonito, para o vivo.” O ditado desses, só somente para rir eu aceitava. Mas, dividir minha gente, por oras, eu detestava de obrar. Por causa que o que me prazia mais era contemplar o volume profundo da ida deles, de esquadrão.
João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas José Olympio. Rio de Janeiro. 1ª edição. 1956.
Iô Jesuíno Filósio: E ninguém sabe aonde esse Grivo foi? Não se tem idéia?
O vaqueiro Adino: É de ver... De certo, danado de longe.
O vaqueiro Tadeu: Nas Províncias...
O vaqueiro Cicica: Saiu daqui, escoteiro, faz dois anos. Em tempo-das-águas.
Moimeichego: Tão lonjão foi?
O vaqueiro Mainarte: Meava-se um janeiro... O Velho mandou. Chuvaral desdizia d’ele ir. Mas o Velho quem quis. Nem esperou izinvernar, té que os caminhos enxugassem.
O vaqueiro Adino: Cara-de-Bronze, uê. Foi os mil macacos!
O vaqueiro Sãos: De de mim, bobagens... Acho que foi só no Paracatu que ele foi...
Cantando, o CANTADOR:
Buriti, minha palmeira,
Toda água vai olhar.
Cruzo assim tantas veredas,
Alegre de te encontrar...
O vaqueiro Sãos (a Moimeichego): O senhor já esteve no Paracatu?
O vaqueiro Tadeu:Paracatu — cidade dos refúgios...
O vaqueiro Cicica: Bestagens. Seguiu em cima com rumo para um dos nortes: que levou bogó de carregar água e trajava terno-todo de couro, modo de passar a catinga alta...
O vaqueiro Fidélis: Se sabe, foi para o norte, dessa banda. Virou a serra...
O vaqueiro Tadeu: Vigia, que o Muçapira está querendo falar a alguma coisa.
O vaqueiro Muçapira: Ele ia por desertas.
Iô Jesuíno Filósio: Bom, para que cafungar por onde teria ido, faz dois anos, agora hoje que ele está aqui de volta?
O vaqueiro Cicica: Pois então o senhor mesmo me diga: o que foi que ele foi fazer? Que saiu daqui, em encoberto, na vagueação, por volver meses, mas como ponto de destino e sem dizer palavra a ninguém... Que ia ter por fito?
O vaqueiro Tadeu: Essas plenipotências...
O vaqueiro Doim: Boa mandatela! A gente aqui, no laboro, e ele passeando o mundo-será...
O vaqueiro Fidélis: Tem de ter o jus, não foi em mandriice. Por seguro que deve de ter ido buscar alguma coisa.
O vaqueiro Sãos: Trazer alguma coisa, para o Cara-de-Bronze.
O vaqueiro Mainarte: É. Eu sei que ele foi pra buscar alguma coisa. Só não sei o que é.
Moimeichego: Ia campear mais solidão?
O vaqueiro Sacramento: Há de ser alguma coisa de que o Velho carecia, por demais, antes de morrer. Os dias dele estão no fim-e-fim...
Moimeichego: O Grivo então foi de romeiro?
O vaqueiro Adino: Tão enganados. O Velho é duro mirabolão, anos ainda pra viver ele tem aos dez e dez. Há-de escopar muita gente.
O vaqueiro Doim: Eh, ele já ficou peco...
O vaqueiro Sacramento: Já estou ouvindo o adeus dele...
— “Como é a tua graça, seô?” — indaguei. Se chamava Pedro Comprido. Mas, aí, eu já tinha pensado. — “Pois vamos! As famílias capinam e colhem, completo, enquanto vocês estiverem em glórias, por fora, guerreando para impor paz inteira neste sertão e para obrar vingança pela morte atraiçoada de Joca Ramiro!...” — eu determinei. — “Ij’ Maria, é ver, nós, de Cristo, jagunceando...” — escutei, dum. Daí, declarei mais: — “Vamos sair pelo mundo, tomando dinheiro dos que têm, e objetos e as vantagens, de toda valia... E só vamos sossegar quando cada um já estiver farto, e já tiver recebido umas duas ou três mulheres, moças sacudidas, p’ra o renovame de sua cama ou rede!...” Ah, ô gente, oh e eles: que todos, quase todos, geral, reluzindo aprovação. Mesmo os meus homens. Fiz gesto, com meu contentamento. Queria o que só me faltou — que foi que o jumento do homem zurrasse. Eu ia transformar os regimentos desses foros. Convoquei todos nas armas. — “E o Borromeu? E o Borromeu?” — ainda perguntavam. Quem era que esse Borromeu? Mandei vir. Um cego; ele era muito amarelo, escreiento, transformado. — “Responde, tu velho, Borromeu: que é que tu faz?” “— Estou no meu canto, cá, meu senhor... Estou me acostumando com o momentozinho de minha morte...” Cego, por ser cego, ele tinha direito de não tremer. — “Tu é devoto?” “— Pecador pior. Pecador sem o que fazer, pede preto, pede padre...” Apontou com o dedo. Levei os olhos. Não vi nada. É assim, a esmo, que os cegos fazem. Aquele era o bom rumo do Norte. — “Ah, meu senhor, eu sei é pedir muitas esmolas...” Pois, então, que viesse também o Borromeu, viesse. Mandei que montassem o dito num cavalo manso, que da banda da minha mão direita devia sempre de se emparelhar. Alguns riram. E, pelo que riram, de certo não sabiam — que um desses, viajando parceiro com a gente, adivinha a vinda das pragas que outros rogam, e vão defastando o mau poder delas; conforme aprendi dos antigos. E, por nada, mais me lembrei, de repentinamente, do menino pretozinho, que na casa do Valado a gente tinha surpreendido, que furtando num saco o que achava fácil de carregar. E tiveram de campear esse menino. Ele estava amoitado, o tempo todo, com a boca no chão, no meio do mandiocal. Quando foi pego, xingava, mordia e perneava. Ele se chamava Guirigó; com olhares demais, muito espertos. — “Guirigó, tu vem vestido, ou nu?” Como que não vinha: Aprontaram um cavalo para ele só, que devia de se emparelhar com o meu, da banda de minha mão esquerda. Há-de há, meu povo! Todos tocamos. Cavalos que chegassem, bastados, tinha não; mas, por diante, animais alheios a gente topasse, para se assenhorear, a laço e mãos. Os muitos vinham a pé, aqueles catrumanos ainda meio vigiados. Ver o seguinte. Eu queria esses campos. Pernoitamos, com marcha de dez léguas, assim mesmo. Terçando um total de projetos, com os entusiasmos, no topo da cabeça minha, poder não pude dormir, mesmo com o cansaço em que estava, na noite não preguei os olhos. Mas conversei surgidamente com os que paravam, espalhados, de sentinelas, e mandei acender foguinhos de assar mandioca e fogueiras de iluminar. Ah, a gente ia encher os espaços deste mundo adiante.
João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas José Olympio. Rio de Janeiro. 1ª edição. 1956.
E em Otacília eu sempre muito pensei: tanto que eu via as baronesas amarasmeando no rio em vidro — jericó, e os lírios todos, os lírios-do-brejo — copos-de-leite, lágrimas-de-moça, são-josés. Mas, Otacília, era como se para mim ela estivesse no camarim do Santíssimo.
A Nhorinhá — nas Aroeirinhas — filha de Ana Duzuza. Ah, não era rejeitã... Ela quis me salvar? De dentro das águas mais clareadas, aí tem um sapo roncador. Nonada! A mais, com aquela grandeza, a singeleza: Nhorinhá puta e bela. E ela rebrilhava, para mim, feito itamotinga. Uns talismãs.
A Rosa’uarda. Me alembrei dela; todas as minhas lembranças eu queria comigo. Os dias que são passados vão indo em fila para o sertão. Voltam, como os cavalos: os cavaleiros na madrugada — como os cavalos se arraçoam. O senhor se alembra da canção de Siruiz?
Mas trouxeram. Me trouxeram, rebanhal, os todos possíveis. Do Sucruiú, uns pouquinhos — alguns com as caras secando os brotes das bexigas, más marcas, feito mijo na areia; outros um ou outro de semblante liso fresco, esses escapos de não terem tido a doença. Os que fingiam não me temer, achavam mais favorável querer ter vindo por próprio conselho; mal-abriam boca em risos. Dei que pronto todos provassem gol d’alguma cachaça. Aquela gente depunha que tão aturada de todas as pobrezas e desgraças. Haviam de vir, junto, à mansa força. Isso era perversidades? Mais longe de mim — que eu pretendia era retirar aqueles, todos, destorcidos de suas misérias. Até que fiz. Ah, mas, mire e veja: a quantidade maior eram aqueles catrumanos — os do Pubo. Eles, em vozes. Ou o senhor não pode refigurar que estúrdia confusão calada eles paravam, acho que, de ser chamados e reunidos, eles estavam alertando em si o sair de um pavor. Ao depois, quando dei brado, queriam se alinhalinhar, mesmo, solertes, como se por soldados reconhecidos. Seriam eles assim bons no ruim, para guerra serviam, para meter em formatura? Tanto todo o mundo achava graça, meus jagunços queriam pagode. Ah, os catrumanos iam de ser, de refrescos. Iam, que nem onças comedeiras! Não entendiam nada, assim atarantados, com temor ouviam minha decisão. — “Filhos-da-mãe!” — eu declarei. Tive de repente fé naqueles desgraçados, com suas desvalidas armas de toda antiguidade, e cabaças na bandola, e panelas de pólvora escura e fedor de fumaça ceguenta. Adivinhei a valia de maldade deles; soube que eles me respeitavam, entendiam em mim uma visão gloriã. Não queriam ter cobiças? Homens sujos de suas peles e trabalhos. Eles não arcavam, feito criminosos? — “O mundo, meus filhos, é longe daqui!” — eu defini. — Se queriam também vir? — perguntei. Ao vavar: o que era um dizer desseguido, conjunto, em que mal se entendia nada. Ah, esses melhor se sabiam se mudos sendo. Dei brado. Indaguei dum. Tomou um esforço de beira de coragem, para me responder. Esse aquele era o do chapéu encartuchado, rapaz moço. Respondeu que Sinfrônio se chamava; e indiciou outro — que era o pai. Aquele outro, o pai, era um homem sem pescoço. Respondeu que se chamava Assunciano. E indicou outro. Mais adiante não deixei. Deixasse, iam de dedo em dedo me passando para o daquelas pernas de fora, que Osirino era, as pernas forradas de lama seca; ou para o que coçava suas costas em pau de árvore, feito um bezerro ou um porco. Visli a sorrateira malícia nos jeitos deles. E mais o do jegue — no jegue amontado, permanecendo de perfil, aquele bronzeado jumento — que tinha, o homem por nome Teofrásio; e só não desamontava do jegue por ordem minha, que em antes eu tinha dado. Ele me disse: — “Dou louvor. Em tudo, chefe, vos obedecemos...” — ele disse; e de lá se virou o focinho branco do jumento. O homem Teofrásio limpou a goela; mas com respeito. — “Assim vos prazido, chefe. Pedimos vossa benção...” E eu concedi — que o Teofrásio, meio chefim deles, o do jegue: que o jegue pudesse trazer. Daí, houve porém. Que um, o sem pescoço, baixinho descoroçoou, na desengraça, observou: — “...Quem é que vai tomar conta das famílias da gente, nesse mundão de ausências? Quem cuida das rocinhas nossas, em trabalhar pra o sustento das pessoas de obrigação?...” O que falou, tinha falado por todos. — “...Pra os roçados: Pra os plantios...” E mesmo um outro, de mãos postas como que para rezar, choramingou: — “Dou de comer à mea mul’é e treis fi’o’, em debaixo de meu sapé...” — e era um homem alto, espingolado, com todos os remendos em todos os molambos.
João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas José Olympio. Rio de Janeiro. 1ª edição. 1956.
A Nhorinhá — nas Aroeirinhas — filha de Ana Duzuza. Ah, não era rejeitã... Ela quis me salvar? De dentro das águas mais clareadas, aí tem um sapo roncador. Nonada! A mais, com aquela grandeza, a singeleza: Nhorinhá puta e bela. E ela rebrilhava, para mim, feito itamotinga. Uns talismãs. A mocinha Miosótis? Não. A Rosa’uarda. Me alembrei dela; todas as minhas lembranças eu queria comigo. Os dias que são passados vão indo em fila para o sertão. Voltam, como os cavalos: os cavaleiros na madrugada — como os cavalos se arraçoam. O senhor se alembra da canção do Siruiz? Ao que aquelas croas de areia e as ilhas do rio, que a gente avista e vai guardando para trás. Diadorim vivia só um sentimento de cada vez. Mistério que a vida me emprestou: tonteei de alturas. Antes, eu percebi a beleza daqueles pássaros, no Rio das Velhas — percebi para sempre. O manuelzinho-da-croa. Tudo isso posso vender? Se vendo minha alma, estou vendendo também os outros. Os cavalos relincham sem causa; os homens sabem alguma coisa da guerra? Jagunço é o sertão. O senhor pergunte: quem foi que foi que foi o jagunço Riobaldo? Mas aquele menino, o Valtêi, na hora em que o pai e a mãe judiavam dele por lei, ele pedia socorro aos estranhos. Até o Jazevedão, estivesse ali, vinha com brutalidade de socorro, capaz. Todos estão loucos, neste mundo? Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente — o que produz os ventos. Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. Deus é que me sabe. O Reinaldo era Diadorim — mas Diadorim era um sentimento meu. Diadorim e Otacília.
Mas o seô Habão não queria ter terminado: negócio que carecia ainda de algum ponto. Dei licença. Ele perguntou, sonseante: ...se eu não prazia de enviar por ele algum recado também para o senhor meu pai, Selorico Mendes, dono do São Gregório, e de outras boas e ricas fazendas?... Eu achei graça, acenei que sim: disse que fosse, reproduzisse a minha saudação... E então foi que o seô Habão levantou a cara, aquietado — até mediante sorriso. De sorte que, para corrigir em siso a tranqüilidade daquilo, eu determinei: — “O senhor vá logo, logo, de rota abatida... E de lá não quero nenhuma resposta...” — enquanto ri, de ver como ele me obedecia expresso, sem necessidade de caráter.
Onde que, mal dele livre me vi, gritei, despachado, pelos demais. Dand’ ordens: — “A rodar por aí, me trazerem os homens!”
Que’s homens? Os todos que fossem e houvesse. — “Quem tiver instrumento — a toque! Quem gostar de dansar, arre melhor! P’r’ apreparo, trazer as mulheres também... Com que as músicas, de lá, lá, lá...” Tudo tinha de semelhar um social. Ao pois, quem era que ordenava, se prazia e mandava? Eu, senhor, eu: por meu renome, o Urutu-Branco... Ah, não. Festa? Eu já estava resolvendo o contrário. Mas reunir aquela porção de homens, e formar todos os guerreiros. A com a gente, a que viessem. Aquilo valia? Os outros não falaram, decerto não acharam ou acharam. Ou quanto mais que, eles, os meus, só mesmo o mover por me agradar, só, era o que de si desejavam; e aquela minha lei era divertida. Saíram, espalhados sendo, em caçar, em boa alarida.
João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas José Olympio. Rio de Janeiro. 1ª edição. 1956.
O vaqueiro José Uéua (voltando-se na direção da varanda): Manheceu, campos brancos!?
O vaqueiro Mainarte: Desfaz não ‘Sé. Ele põe fé em vau em tristeza... Está cantando com seus pássaros...
O vaqueiro José Uéua: Tou esfazendo não, estou é louvando, uê. Mote bom. Apreciei, em tal. Boas mágoas.
O vaqueiro Cicica: De acordo, que diverte. É bom, é. Mestre violeiro.
O vaqueiro Mainarte: Diverte com os sentimentos velhos, todos juntos. Vai rastreando...
Quase todos: — É bom. — É bonito. — Eu apreceio. — É de valer. É bom...
O vaqueiro Muçapira: É bom.
(Pausa.)
Entra o cozinheiro-de-boiada MASSACONGO.
O vaqueiro Cicica: Como é que vão as coisas dos outros, Rei-Congo?
O cozinheiro-de-boiada Massacongo (vindo direito ao vaqueiro Cicica, e a ele se dirigindo): Eis tão lá. O Grivo fala, fala, pelas campinas em flores... Acho que tão cedo ele não vai esbarrar de relatar...
O vaqueiro Cicica: Que que contou? Diz donde veio, aonde é que foi?
O cozinheiro-de-boiada Massacongo: Se disse, disse. E eu sei? Afora eles dois, só quem entra lá dentro, lá, é o Peralta e o Nhácio, — nos instantes em que o Velho chama um. E a Soanhana, que tem de estar sempre levando café.
O vaqueiro Adino: E o Grivo?
O cozinheiro-de-boiada Massacongo: Vi. Ele foi amofim e voltou bizarro, com cores boas...
Moimeichego: O Grivo? Quem é o Grivo?
O vaqueiro Cicica: Vaqueiro.
O vaqueiro Adino: Vaqueiro, como nós, que está chegando de estúrdias viagens. (Ao cozinheiro-de-boiadas Massacongo:) Ara, Rei-Congo, é só issozinho que tu sabe?
O cozinheiro-de-boiada Massacongo: E eu... Eu sube... Ah, mas isso é assunto dos silêncios...
O vaqueiro Cicica: Ixe, Rei-Congo, bota os novos!
O vaqueiro Zèguilherme: Vamos ver esses alforjes...
O cozinheiro-de-boiada Massacongo: Diz-se que o Grivo aonde lá esteve até se casou... Que trouxe a mulherzinha dele, até... Que deixou essa moça na Virada, em casa de Dona Zesuína...
O vaqueiro Raymundo Pio: Oxe, é deveras!
O vaqueiro Sacramento: É lélis... Prega na parede!
O cozinheiro-de-boiada Massacongo: Eu sei, não vi: sei é ouvido contado...
O vaqueiro José Uéua: Lélis, que o Grivo veio foi amontado num jumento, e com um chapéu-de-palha todo enorme, de palha-de-capim...
O vaqueiro Sãos: E a mula, que está aí, uma mula queimada? Não veio não foi nela?
O cozinheiro-de-boiada Massacongo: Do justo o certo, do certo o crido, do crido o havido: que ele veio mas foi com tropa boa, esquipada, de bestas e burros, e o jumento; ouvi. E assim que o Peralta contou à Iàs-Flores, Iàs-Flores contou a Maria Fé, Maria Fé contou à Colomira, aí Colomira me disse. Daí é que sei.. Vou indo!
E, num reverter de mão, eu já estava pensando: o que eu ia fazer com ele, com o seô Habão, por alguma alvíssara de mercê. Porque, em fato, ele merecia, e eu a ele devia. Porque ele tinha vesprado em reconhecer meu poder, antes de outro qualquer; e mesmo um barão de presente dele tinha sido, e era, aquele meu formoso cavalo Siruiz, em qual eu estava amontado.
Aí, me lembrei, de uma coisa, e isso era próprio encargo para ele, cabendo em sua marca de qualidade. Me lembrei da pedra: a pedra de valor, tão bonita, que do Arassuaí eu tinha trazido, fazia tanto tempo. Tirei o embrulhinho, da bolsa do cinto. Apresentei a ele. Eu falei:
— “Seô Habão, o senhor escute, o senhor cumpra: pega este mimo, zelando com os dedos todos de suas mãos... Já e já, o senhor viaje, num bom animal, siga rumo dos Buritis Altos, cabeceira de vereda, para a Fazenda Santa Catarina...”
E mais disse: que era para entregar, de minha parte, à moça da casa, que Otacília se chamava, a qual era minha sempre noiva. Mas não dando razão de nomear minha pessoa pelos altos títulos, nem citando chefia de jagunços... Mas somente prezar que eu era Riobaldo, com meus homens, trazendo gloria e justiça em território dos Gerais de todos esses grandes rios que do poente para o nascente vão, desde que o mundo mundo é, enquanto Deus dura!
Ah, não: em Deus não falasse. Seô Habão pôs atenção; perturbado mas sisudo, ele cogitava. O que ele dizia, carecia de ser repetido, esfiando o assunto nas pontas dos dedos, tostões. Ser rico é um diverso dissabor? Que um pudesse se acautelar assim, me atanazava. Quem era? O que por primeira vez reparei: que ele tinha as orelhas muito grandes, tão grandonas; até, sem querer, eu tive de experimentar com a mão o tamanho medido das minhas. Melhor trazer esse sujeito comigo, perto mais perto, para poder vigiar, por todas as partes? Melhor, não; o melhor seria desmanchar a presença dele em definitivas distâncias. — Não vou comer teus peitos, teu nariz, teus duros olhos moles... — eu pensei. Mas ele também tinha alguma espécie de chefia. Eu virei a cara, andei três passos, dando com Diadorim. — “O que eu tolero e desentendo, esse homem: que é, porque, dele, não se consegue ter raiva nem ter pena...” — falei. Mas vi um adejo sombrio no meu amigo, condenado que era de tristeza que não quer ceder suas lágrimas. O quanto, por causa da pedra de topázio? — eu reconheci. Eu não tinha tido dó de Diadorim. “Dei’stá”, tem tempo, Diadorim, tem tempo...” — pensei, a meio. Da amizade de Diadorim eu possuía completa certeza. E mais não me amofinei. De manhã cedo, o senhor esbarra para pensar que a noite já vem vindo? O amor de alguém, à gente, muito forte, espanta e rebate, como coisa sempre inesperada. E eu estava naquelas impaciências. Trasmente que, em Otacília, mesmo, verdadeiro eu quase nem cuidava de sentir, de ter saudade. Otacília estava sendo uma incerteza — assunto longe começado. Visse, o que desse, viesse. O seô Habão ia, levava a pedra de topázio, a vida do mundo ia vivendo, coração dá tantas mudanças; meus dízimos eu pagava. O pássaro que se separa de outro, vai voando adeus o todo tempo. Ah, não, eu não — rio, riachos! — não me amofinava. Aquela tristeza de Diadorim eu não aceitei, nem ceitil não recebi. Ingratidão, para o mais-tarde.
João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas José Olympio. Rio de Janeiro. 1ª edição. 1956.
Por que é que todos não se reúnem, para sofrer e vencer juntos, de uma vez? Eu queria formar uma cidade de religião. Lá, nos confins do Chapadão, nas pontas do Urucuia.
O meu Urucuia vem, claro, entre escuros. Vem cair no São Francisco, rio capital. O São Francisco partiu minha vida em duas partes.
Assim era Joca Ramiro tão diverso e reinante, que, mesmo em quando ainda parava vivo, era como se já estivesse constando de falecido.
Dei galope. No Valado chegamos, conforme íamos retornar, por assim. De galope, como está dito. Gente, gentinha, nos rodeou, roceiros em seu serviço. Aquele seô Habão, incluso, muito estarrecido. Esbarramos parada. O que eu carecia era de uns instantes sempre meus, para estribar meu uso. Era primeira viagem saída, de nova jagunçagem; e as extraordinárias cousas para que todos admirassem e vissem, eu estava em precisão de fazer. E vi um itambé de pedra muito lisa; subi lá. Mandei os homens ficassem em baixo, eles outros esperavam. Minha influência de afã, alegria em artes, não padecesse de se estorvar em monte de pessoas nenhumas. De despiço, olhei: eles nem careciam de ter nomes — por um querer meu, para viver e para morrer, era que valiam. Tinham me dado em mão o brinquedo do mundo.
Fiquei lá em cima, um tempo. Quando desci, umas coisas eu resolvia. Aonde se ia; em cata do Hermógenes? Ah, não. Antes, primeiro, para o Chapadão do Urucuia, onde tanto boi berra. Ao que me seguissem. Ah, mas, assim, não. O que foi o que eu pensei, mas que não disse: — Assim não...
E veio perante minha presença o seô Habão, mais antecipado que todos, macio, atarefadinho, ele já me sussurrava. Homem, esse! Ele queria me oferecer dinheiro, com seus meios queria me facilitar. Ah, não! De mim ele é que tinha de receber, tinha de tomar. Agarrei o cordão de meu pescoço, rebentei, com todas aquelas verônicas. As medalhas, uma delas que eu tinha de em desde menino. Fiz gesto: entreguei, na mão dele. O senhor havia de gostar de ver o ar daquele seô Habão, forçado de aceitar pagamento do que nem eram correntias moedas de tesouro do rei, mas costumeiras prendas de louvor aos santos. Ele estava em todos tremores — conforme esses homens que não têm vergonha de mostrar medo, em desde que possam pedir à gente perdão com muita seriedade. Digo ao senhor: ele beijou minha mão! Ele devia de estar imaginando que eu tinha perdido o siso. Assim mesmo, me agradeceu bem, e guardou com muito apreço as medalhas na algibeira; até porque, não podia obrar de outra forma. Matar aquele homem, não adiantava. Para o começo de concerto deste mundo, que é que adiantava? Só se a gente tomasse tudo o que era dele, e fosse largar o cujo bem longe de lá, em estranhas terras, adonde ele fosse preta-e-brancamente desconhecido de todos: então, ele havia de ter de pedir esmolas... Isso, naquela hora, pensei. Ah, não. E nem não adiantava: mendigo mesmo, duro tristonho, ele havia ainda de obedecer de só ajuntar, ajuntar, até à data de morrer, de migas a migalhas...
As verônicas e os breves ele vendesse ou avarasse para os infernos. Comigo só o escapulário ainda ficou. Aquele escapulário, dito, que conservava pétalas de flor, um pedaço de toalha de altar recosturadas, e que consagrava um pedido de benção à minha Nossa Senhora da Abadia. Que, mesmo, mais tarde, tornei a pendurar, num fio oleado e retrançado. Esse eu fora não botava, ah, agora podia desdeixar não; inda que ele me reprovasse, em hora e hora, tantos meus malfeitos, indas que assim requeimasse a pele de minhas carnes, que debaixo dele meu peito todo torcesse que nem pedaço quebrado de má cobra.
“... ninguém está a cobro da doideira de si ou de outros.” (Tutaméia)
“Agora, eu, sei como tudo é: as coisas que acontecem, é porque já estavam ficadas prontas, noutro ar...” (Grande Sertão: Veredas)
Certos desenvolvimentos recentes na Psicologia nos levam ao ápice do espectro das aptidões humanas. Deixando para trás a limitada tentativa, característica de sua adolescência, de tentar compreender o mundo humano principalmente através da análise do menos-que-normal ou do quantificável, ela abre suas asas em prenúncios de maturidade.
Superando o racionalismo cartesiano, olha com descontaminados olhares modernos o imenso potencial humano e se lança ao estudo do êxtase, da genialidade, das experiências culminantes, dos estados modificados de consciência. A revelação deste potencial de expansão da consciência é o equivalente psicológico da descoberta e controle da energia atômica pelas ciências físicas. No interior das pessoas, dormindo, existe uma tremenda capacidade de explosão da consciência para além das fronteiras do individual.
Diferentemente do caso das ciências físicas, este conhecimento é antiqüíssimo, mas sempre se manteve restrito a grupos pequenos, encontrando obstáculos à sua popularização pelo estágio evolutivo da humanidade, bem como por outros motivos a serem abordados posteriormente.
O momento atual, porém, mostra-se propício e a ciência psicológica vai beber às fontes sábias das grandes tradições da humanidade. Revitaliza-se com o Conhecimento, com aquela filosofia perene que em todas as eras tem sido renovada e se mantém viva. Dessa visão surge uma nova-antiqüíssima psicologia, uma teorização mais ampla que as anteriores, pois que as inclui e transcende.
Ver a obra de Guimarães sob esta ótica é outra aventura, transaventura.
Um postulado básico dessa psicologia, ancorada por um lado nas sabedorias tradicionais e por outro lado na ciência contemporânea, é o da existência de outra realidade, determinante, por detrás das aparências. Na linguagem rosiana: “O dínamo da vida, causas, funciona em outra parte?”
Guimarães Rosa reafirma a antiga constatação de que a vida comum transcorre num estado de entorpecimento, de inconsciência. Somos dominados por uma espécie de encantamento que nos cega para o essencial e do qual é preciso despertar. “Vivemos de modo incorrigível distraídos das coisas mais importantes. [...]” “A gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto. As pessoas e as coisas não são de verdade! E de que é que, a miúde, a gente adverte incertas saudades?”
Mas não é fácil desfazer o encanto, elevar a consciência ao reino do essencial e mantê-la aí. Para isso é preciso desencadear e sustentar longo e tortuoso processo de luta contra a inércia que dorme em cada canto da psique. Esta árdua tarefa entretanto é o caminho de volta à verdade das coisas e pessoas.
A realidade sensível aparente é restrita, triste, confusa, enganosa. “Ai, que mundo triste é este, que a gente está mesmo nele só pra mor de errar! E quando a gente quer concertar, ainda erra mais.”
Aquele encanto mantém uma espécie de loucura, de difícil reconhecimento, pois que afeta a todos ou quase todos. Em Ave, Palavra Guimarães refere-se a ela quando, descrevendo uma “personagente”, comenta que não era pessoa louca, a não ser a da básica e normal doideira humana.
Esta vida é de cabeça para baixo. Vivemos aprisionados num “círculo-de-giz-de-prender-peru” sem apanhar o sentido pleno de existir. “Sem efeito, que é que a gente conhece, de si mesmo, em verdade?”
Os verdadeiros fins e meios da vida são outros, que desconhecemos.
E a língua repetitiva, automatizada, na forma como é usada pela maioria, torna-se cadeia a nos prender à roda da inconsciência, a manter a doideira normal. É a “goma arábica da linguagem cotidiana”, que o escritor vai tão genialmente tentar dissolver com a renovação que perpetra em sua literatura. As palavras então brilham com novos sentidos.
Vivemos no escuro entre nascer e morrer, cercados por terrível oceano de desconhecimento e incerteza. Essa situação, no entanto, não é irremediável. É possível o salto para o outro lado, para a realidade pluridimensional, o mundo da poesia e da consciência iluminada.
Não será, porém, o pensamento racional barco confiável nessa travessia. Antes, requer-se um afinamento intuitivo com o pulsar silencioso que gera e mantém a vida. “Todo fim é exato. O que a gente tem de aprender é, a cada instante, afinar-se com uma linhazinha, para caber de passar no furo da agulha, que cada momento exige. Mas não pode ser analiticamente. Como nas histórias de fadas, temos de achar e conservar o contato com o gênio que fez tudo isso para a gente”.
Prende-nos ou cega-nos o círculo-de-giz, cadeia poderosa, hipnotizadora, mas ao mesmo tempo frágil, simples risco sem força em si.
É possível o salto para fora dele; a língua renovada é talismã capaz de neutralizar o encanto do risco de giz e restabelecer o contato com o gênio.
Realizado este contato, defrontamo-nos com um paradoxo: os dois mundos são um só. A mesma realidade tragicamente obscura é também a realidade luminosa. Sua transfiguração ocorre com a perspectiva emergente, metavisão a abarcar as anteriores. O acréscimo de outras dimensões, resultante da modificação do estado comum de consciência, transforma a realidade cotidiana.
Guimarães já aponta para a possibilidade dessa experiência de multidimensionalidade na novela “Páramo”: “...mas é como se meu espírito se soubesse a um tempo em diversos mundos, perpassando-se igualmente em planos entre si apertadíssimos.”
A manifestação literária da explosão da consciência para além do individual e da linearidade espaço-temporal é trabalho hercúleo para todos que tentaram realizá-lo. Guimarães encontrou uma forma originalíssima não só de expressá-la, mas também de catalisar sua realização pelo leitor. No mínimo é semente vigorosa, com ótimas perspectivas de germinar em qualquer campo fértil.
O paradoxo da unidade subjacente dos dois mundos é o enigma cuja revelação a humanidade busca, consciente ou inconscientemente. É o anseio que se manifesta nas mitologias de todos os povos; e o prêmio da eterna busca do herói, descrita nas mil formas daquilo que os especialistas chamam de “o monomito”.
Atingindo o alvo, a vida, a mesma vida de todo o dia, é brilho e magia, transbordante de sentido e sentimento. Carece ver diretamente, desvelar. No conhecido ditado oriental, nirvana, o mundo iluminado, e samsara, a realidade ilusória, são a mesma coisa.
Campbell, o grande estudioso da mitologia, afirma que a função do mito e dos rituais é tornar possível, e facilitar, por analogia, o salto de uma visão, a do mundo da multiplicidade, para outra, a do mundo unificado.
Mas a apreensão do substrato uno é frustrada pelos próprios órgãos através dos quais ela deve ser realizada. As formas da sensibilidade e as categorias do pensamento (Kant) de tal forma confinam a mente que torna-se normalmente impossível não apenas ver, mas mesmo conceber o que existe além do colorido, fluido e infinitamente variado espetáculo do mundo fenomênico.
Além do sensível e do acessível à análise, jaz a unidade. O universo é uma harmonia majestosa de formas fluindo para o ser, explodindo e se dissolvendo. Mas, absortas na visão parcial, o que as criaturas experimentam é uma terrível cacofonia de gritos, choro e dor.
Os mitos não negam esta agonia, mas revelam dentro, atrás e em volta dela a paz essencial.
Em “Tresaventura” (Tutaméia), as duas visões opõem-se como o mundo do “tintim de tintim”, das aparecências, onde a morte, a maldade e o sofrimento são constantes, e o universo “de-cor”, do coração, do espaço aberto, ilimitado, do equilíbrio e harmonia.
Djá, ou Iaí, menininha, vive no indizível, “no intato mundo das ideiazinhas ainda”. Já o irmão é do mundo trabalhoso, onde pássaros e homens vivem em conflito. O arrozal é campo de batalha.
Mas Djá vê o arrozal transreal, beleza pura, e os pássaros são “do céu seus alicercinhos”. É visão paradisíaca, ainda que veja o mesmo agressivo e limitado mundo dos adultos. Para ela o arrozal é o grande verde e amarelo, sempre belo. Situa-se por cima do mundo, no miolo da luz.
O irmão é do não-real, do tintim de tintim, e ela parece protestar: “você não é você, e eu queria falar com você”. Mas ela está no mais-que-real e, de qualquer forma, vai dormir “dona em mãozinha de chave dourada, entre os gradis da alegria.”
Noutro texto Guimarães propõe a questão: “O inferno é o céu mesmo, para os que para o céu não estão preparados”? E ainda noutro local constata: “O mundo supura é só a olhos impuros.”
A diferença está na impureza da visão. De uma perspectiva, a ignorância, a incerteza, o erro. Da outra, tudo está correto, inclusive a necessidade e anseio de agir para modificar o mundo do tintim de tintim.
A realidade é função do estado de consciência. E não se veja aí, a despeito da aparência, uma questionável aceitação do idealismo puro. O “real-real” é filho com pai e mãe e se tece com mais fios que os da roca das velhas categorias filosóficas.
Mas esta é questão vasta. Merece, sem dúvida, mais atenção, com mais detalhes. Antes, porém, uma explicitação do conceito de consciência como ele vem sendo usado neste texto.
José Maria Martins em Guimarães Rosa o alquimista do coração Vozes. Petrópolis. 1995.
Vai, e eu, por um raio de momento, eu tinha concebido que carecesse de tirar a vida a Zé Bebelo, por maior sossego de meu reger, no futuramente; e agora eu estava quase triste, com pena de ver que ele ia-s’embora. O divertido havia de ser, sim isso, de levar Zé Bebelo comigo, de sotenente, através desse através. Ah, homem como aquele, não se matava. Homem como aquele, pouco obedecia. A ele mandei fornecer mais um cavalo, e um cargueiro — com mantimento, coisas, munição melhor. Dali a hora, mesmo, ele pegou caminho. Para o sul. Vi quando ele se despediu e tocou — com o bom respeito de todos —; e fiquei me alembrando daquela vez, de quando ele tinha seguido sozinho para Goiás, expulso, por julgamento, deste sertão. Tudo estava sendo repetido. Mas, da vez dessa, o julgamento era ele, ele mesmo, quem tinha dado e baixado. Zé Bebelo ia s’embora, conseguintemente. Agora, o tempo de todas as doideiras estava bicho livre para principiar.
De seguida, parado persisti, para um prazo de fôlego. Aí vendo que o pessoal meu já me obedecia, prático mesmo antes da hora. Como que corriam e mexiam, se aprontando para saída, sacudiam no ar os baixeiros, selavam os cavalos. Tantos e tantos, eu sabia o nome e o defeito maior de cada um daqueles homens, e tantos seus braços e tantos rifles e coragens. Aí eu mandava. Aí eu estava livre, a limpo de meus tristes passados. Aí eu desfechava. Sinal como que me dessem essas terras todas dos Gerais, pertencentes. Por perigos, que por diante estivessem, eu aumentava os quilates de meu regozijo. À fé, quando eu mandasse uma coisa, ah, então tinha de se cumprir, de qualquer jeito. — “Tenho resoluto que!” — e montei, com a vontade muito confiada. Dali a gente tinha logo de sair, segundo a regra exata. Estradeei. Nem olhei para trás. Os outros me viessem? Cantava o trinca-ferro. Uma arara chiou cheio; levou bala, quase. Atrás de mim, os cabras deram vivas. Eles vinham, em vinham. Eu contava, prazido, o tôo dos cascos.
João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas José Olympio. Rio de Janeiro. 1ª edição. 1956.
Entram os vaqueiros TADEU e SÃOS, seguidos dos vaqueirosZAZO, JOSÉ UEUA, RAYMUNDO PIO e FIDÉLIS.
O vaqueiro Tadeu: Esbarremos. No chove, chove, tá impossível. Diacho, chuva dá é fome, de bem comer...
O vaqueiro Adino: Pai Tadeu, como é que cê confirma o nome do Velho, por inteiro, registral?
O vaqueiro Sãos: Sezisbério...
O vaqueiro Tadeu: Por que, uai, gente? O nome cujo, todo?
O vaqueiro Cicica: Como for, em um pedido meu, compadre Tadeu.
O vaqueiro Tadeu: Nome dele? A pois, que: Sigisberto Saturnino Jéia Velho, Filho — conforme se assina em baixo de documentos. Dele sempre leram, assim, nos recibos...
O vaqueiro Fidélis: Também estou lembrado.
O vaqueiro Tadeu: Agora, o “Filho”, ele mesmo põe e tira: por sua mão, depois risca... A modo que não quer, que desgosta...
O vaqueiro Sacramento: A ser, nessa idosa idade.
O vaqueiro Mainarte: Não quis filhos. Não quer pai.
O vaqueiro Cicica: Tão idosa idade assim não.
O vaqueiro Doim: Cara-de-Bronze, uê. Lá ele pode lá pode ter sido filho de alguém?
Moimeichego:Tem família nenhuma? Nem parentes? Vive sozinho?
O vaqueiro Tadeu: Sozinho? Até tudo.
O vaqueiro Mainarte: Sozim no nariz de todos, conversando com a gente...
O vaqueiro Tadeu: A verdade que diga, acho que ele é o homem mais sozinho neste mundo... É ele, e Deus —
O vaqueiro Doim: Axi! Deus? Sei é o Cara-de-Bronze ajuntando suas duras riquezas...
O vaqueiro Tadeu: Olhe, irmão: Deus é menino em mil sertões, e chove em todas as cabeceiras...
— “Sendo vós, companheiros...” — eu falei para em volta.
Tantos, tantos homens, os nos rifles, e eles me aceitavam. Assim aprovaram. O Chefe Riobaldo. Aos gritos, todos aprovavam. Rejuravam, a pois. A esses resultados. No que eram com solenidade, sinceridade. Tudo dado em paz. Só aqueles dois amaldiçoados irmãos, baldeados mortos, na ponta de unha. Ali, enterrar aqueles dois seria faltar a meu respeito. Amém. Tudo me dado. O senhor, mire e veja, o senhor: a verdade instantânea dum fato, a gente vai departir, e ninguém crê. Acham que é um falso narrar. Agora, eu, eu sei como tudo é: as coisas que acontecem, é porque já estavam ficadas prontas, noutro ar, no sabugo da unha; e com efeito tudo é grátis quando sucede, no reles do momento. Assim. Arte que virei chefe. Assim exato é que foi, juro ao senhor. Outros é que contam de outra maneira.
Ao fim, depois que João Goanhá me aprovou, revi os aspectos de Zé Bebelo. Acertar com ele.
— “O senhor, agora...” — eu quis dizer.
— “Não, Riobaldo...” — ele me atalhou. — “Tenho de tanger urubu, no m’embora. Sei não ser terceiro, nem segundo. Minha fama de jagunço deu o final...”
Daí, riu, e disse, mesmo cortês:
— “Mas, você é o outro homem, você revira o sertão... Tu é terrível, que nem um urutu branco...”
O nome que ele me dava, era um nome, rebatismo desse nome, meu. Os todos ouviram, romperam em risos. Contanto que logo gritavam, entusiasmados:
— “O Urutu-Branco! Ei, o Urutu-Branco!...”
Assim era que, na rudeza deles, eles tinham muita compreensão. Até porque mais não seria que, eu chefe, agora ainda me viessem e dissessem Riobaldo somente, ou aquele apelido apodo conome, que era de Tatarana. Achei, achava.
João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas José Olympio. Rio de Janeiro. 1ª edição. 1956.
Ato de todos quietos permanecidos, esbarrados com tanta singelez de choques. Ah, eu, meu nome era Tatarana! E Diadorim, jaguarado, mais em pé que um outro qualquer, se asava e abava, de repôr o medo mor. Ele veio marechal. Se viram, se sentiram, decerto que acertaram: pelos altos de nós dois; e porque logo aí Alaripe, o Acauã, o Fafafa, o Nelson, Sidurino, Compadre Ciril, Pacamã-de-Presas — e outros e outros — já formavam do lado da gente. — Tenho de chefiar! — eu queria, eu pensava. Isso eu exigia. Assim. João Goanhá se riu para mim. Zé Bebelo sacudiu uns ombros.
Ali, era a hora. E eu frentemente endireitei com Zé Bebelo, com ele de barba a barba. Zé Bebelo não conhecia medo. Ao então, era um sangue ou sangues, o etcétera que fosse. Eu não aceitava muita parlagem:
— “Quem é que é o Chefe?” — eu quis.
Se quis, foi com muita serenidade. Zé Bebelo retardou. Eu social, encostado. Conheci que ele tardava e pensava, para ver o que fazer mais vagarosamente.
— “Quem é-que?” — eu brando apertei.
Eu sabia do respirar de todos. Durasse mais, aquilo eu já largava, por me cansar, por estar achando cacete. Minha vontade estróina de paliar: — Seu Zé Bebelo, velho, tu me desculpe... — eu calei. Zé Bebelo se encolheu um pouco, só. Aí ele não tremeu, no sucinto dos olhos.
— “A rente, Riobaldo! Tu o chefe, chefe, é: tu o Chefe fica sendo... Ao que vale!...” ele dissezinho fortemente, mesmo mudado em festivo, gloriando um fervor. Mas eu temi que ele chorasse. Antes, em rosto de homem e de jagunço, eu nunca tinha avistado tantas tristezas.
João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas José Olympio. Rio de Janeiro. 1ª edição. 1956.
É sistema normativo que elege um modelo de mulher ideal, contida e obediente: aquela que se dedica unicamente à família, que terá uma casa que governar, marido e filhos para educar, esvaziando-a do uso prazeroso do corpo, estando no casamento a única forma de sexo lícito.
Há, entretanto, algumas que fogem da esfera da vida privada, desse quadro de mulheres silenciosas e adquirem poder político assumindo a posição de administradoras do latifúndio, como é o caso de dona Adelaide no Campo-Redondo, e de dona Próspera Blaziana no Vau-Vau. Elas ultrapassam os limites da vida doméstica. Há ainda moças, como Rosa’uarda, filhas de pequenos comerciantes, que não estão inseridas naquela esfera pudica em que as filhas dos fazendeiros estão enredadas, nem se consentem à prática do amor livre como as prostitutas. Todavia, elas também se colocam na esteira das mulheres que encontram no casamento o objetivo de sua existência.
Apesar de todo o esforço para a manutenção das regras impostas pela sociedade patriarcal e religiosa, existe uma velada cumplicidade com os concubinatos, com um meretrício ordenado, em razão dos celibatários. É o caso de Selorico Mendes, padrinho e suposto pai de Riobaldo, que vive com uma mulata para quem deixa uma de suas fazendas após falecer. Esse quadro de mancebia existe entre os fazendeiros e entre os jagunços, como conta Umbelino a Riobaldo: “Já tive uma mulher amigável só minha, na Rua-do-Alecrim, em São Romão, e outra, mais, na Rua-do-Fogo...”.
Outras relações extraconjugais aparecem. São “casos de adultério” dissimulados e ocasionais pontilhados aqui e ali, como o que se passou entre Riobaldo e a filha de Manoel Inácio, pequeno fazendeiro. Ela recebe sua discreta visita enquanto o marido está viajando. O adultério é uma relação alternativa, que não é resultado da precariedade das condições materiais de vida, pois não é um ofício; antes faz parte de um desdobramento de solidariedade ante a necessidade do sexo e as vicissitudes da vida sertaneja, revelando os tênues laços do matrimônio que tenta sobreviver entre o aceitar os impulsos naturais e o medo da transgressão. Nos arredores das fazendas vivem ainda mulheres que se afastam da esfera do casamento e da sexualidade, dedicando-se às artes de adivinhações ou às rezas, como Izina Calanga e Maria Leôncia.
Existe uma distância que separa os jagunços das “moças de família”, como podemos observar no episódio ocorrido na Fazenda Santa Catarina, em que Riobaldo se acha indigno de Otacília, por pertencer ao universo da jagunçagem. O grupo dos jagunços — população móvel — mantém-se mais aberto às mudanças sociais. A jagunçagem, em Grande Sertão: Veredas, apresenta-se como uma organização dotada “de leis próprias interiores”, em oposição às leis do Estado, exteriores. Essa lei jagunça é também uma forma de poder, embora longe do padrão de lei oferecido pelo Estado: há uma hierarquia estabelecida entre chefe maior, chefes menores e subordinados, e impera nesta organização uma “mentalidade coletiva”, “lealdade para com o grupo, mas também para com o próprio sertão” (Fernando Correia Dias, Aspectos Sociológicos de Grande Sertão: Veredas).
Arranchando em qualquer lugar, o jagunço não se enquadra naquele sistema econômico dos fazendeiros, pois não está ligado à produção ou à família. Apesar disso existe uma relação de subserviência por parte dos jagunços; eles servem à causa alheia para receber a munição e os elementos necessários para sua sobrevivência. Isso de alguma forma os mantém atados ao sistema econômico dos fazendeiros. Eles não trabalham visando o lucro, mas se submetem a chefias potentes objetivando dar e receber proteção. Nesse espaço, o homem vem e vai, deixando apenas rastros e filhos, enquanto a mulher permanece sempre à espreita daquele que surge. Ele adota como valor aquilo que lhe irá favorecer ou contribuir para sua sobrevivência, e esta é marcada pela instabilidade do próprio sertão, o que resultará num modo “provisório” desse ser. Logo, o “jagunço é o sertão”, o que deixa transparecer o caráter flutuante e nômade desse grupo:
Órfão de conhecença e de papéis legais, é o que a gente vê mais, nestes sertões. Homem viaja, arrancha, passa: muda de lugar e de mulher, algum filho é o perdurado. Quem é pobre, pouco se apega, é um giro-o-giro no vago dos gerais, que nem os pássaros de rios e lagoas. O senhor vê: o Zé-Zim, o melhor meeiro meu aqui, risonho e habilidoso. Pergunto: — “Zé-Zim, por que é que você não cria galinhas-d’angola, como todo o mundo faz?” — “Quero criar nada não...” me deu resposta: — “Eu gosto muito de mudar...” Está aí, está com uma mocinha cabocla em casa, dois filhos dela já tem. Belo um dia, ele tora. É assim. Ninguém discrepa.
Portanto, existe uma subversão, por parte dos jagunços, daquelas leis que regem o sistema familiar dos fazendeiros e dos trabalhadores, seguindo-se na jagunçagem um outro esquema de condutas que, aos olhos da sociedade patriarcal brasileira, são consideradas irregulares e/ou incomuns. No sertão dos jagunços, a convivência conjugal é destituída, descaracterizada, no que diz respeito à sexualidade, pois esta não se realiza somente no seio familiar. A comunidade jagunça aceita e instiga a sexualização da mulher, todos gozam de uma absoluta licença sexual.
Assim, a família não é o único lugar em que a sexualidade é permitida e reconhecida. Essas condutas dos jagunços, apesar de destoarem do sistema dos fazendeiros, não são objeto de análise e alvo de intervenção por parte destes; não há exortações morais ou religiosas com fins de introduzir, no comportamento sexual daqueles, uma conduta reconhecida como “aceitável”, “correta”. Os jagunços representam “um estado de lei”, suas armas protegem os fazendeiros ou os punem, e são essas relações de poder e repressão que modificam esse juízo moral.
Antes, as verdades, essas, as coisas comuns, conforme foi que se passaram. Mais não sei? Mesmo não tinha botado idéia na cabeça, acabando de despertar de meu sono. Diadorim era o que estava alegrinho especial: só se ele tinha bebido. Diadorim, de meu amor — põe o pezinho em cera branca, que eu rastreio a flor de tuas passadas. Me recordo de que as balas em meu revólver verifiquei. Eu queria a muita movimentação, horas novas. Como os rios não dormem. O rio não quer ir a nenhuma parte, ele quer é chegar a ser mais grosso, mais fundo. O Urucuia é um rio, o rio das montanhas. Rebebe o encharcar dos brejos, verde a verde, veredas, marimbus, a sombra separada dos buritizais, ele. Recolhe e semeia areias. Fui cativo, para ser solto? Um buraquinho d’água mata minha sede, uma palmeira só me dá minha casa. Casinha que eu fiz, pequena — ô gente! — para o sereno remolhar. O Urucuia, o chapadão derredor dele. Estas árvores: essas árvores. Conversa, Zé Bebelo: conversa, com as marrecas chocas, no meio das varas do juncal. Mesmo na hora em que eu for morrer, eu sei que o Urucuia está sempre, ele corre. O que eu fui, o que eu fui. E esses velhos chapadões — d’ele, dos Couros, de Antônio Pereira, dos Arrepiados, do Couto, do Arrenegado. Um homem é escuro, no meio do luar da lua — lasca de breu. Dentro de mim eu tenho um sono, e mas fora de mim eu vejo um sonho — um sonho eu tive. O fim de fomes. Ei, boto machado em toda árvore. Eu caminhei para diante. Em, ô gente, eu dei mais um passo à frente: tudo agora era possível.
Não era de propósito, o senhor não julgue. Nem não fizeram espantos. Não exclamei, não pronunciei; só disse.
— “Ah, agora quem aqui é que é o Chefe?”
Só perguntei. Sei por que? Só por saber, e quem-sabe por excessos daquela minha mania derradeira, de me comparecer com as doidivãs bestagens, parlapatal. De forma nenhuma eu não queria afrontar ninguém. Até com preguiça eu estava. A verdade, porém, que um tinha de ser o chefe. Zé Bebelo ou João Goanhá. Um para o outro olharam.
— “Agora quem é que é o Chefe?”
Somente eu estava por cima da surpresa deles? Zé Bebelo — o pensante, soberbo e opinioso. João Goanhá — duro homem tão simples, vindo por meio de dificuldades e distâncias, desde a outra banda do rio, caçar a lei da companhia da gente, como um costume necessário, que sem isso ele não conseguia direito se pertencer. Com meus olhos, tomei conta.
— “Quem é que é o Chefe?!” — repeti.
Me olharam. Saber, não soubessem, não podiam como responder: porque nenhum deles não era. Zé Bebelo ainda fosse? Esse pardejou. E, o João Goanhá, eu vi aquele mestre quieto se mexer, em quente e frio, diante das minhas vistas — nem não tinha ossos: tudo nele foi encurtando medida — gesto, fala, olhar e estar. Nenhum deles. E eu — ah — eu era quem menos sabia — porque o Chefe já era eu. O Chefe era eu mesmo! Olharam para mim.
— Quem é qu’...”
E... Ao que o pessoal, os companheiros todos, convocados, fechavam roda. Eu felão. Não me entendessem? Foi que alguns dos homens rosnaram. E foi esse Rasga-em-Baixo, o principal deles, esse, pelo que era, pelo visto, oculto inimigo meu — que buliu em suas armas... Sonha aos crespos, luziu faca, no a-golpe... Meu revólver falou, bala justa, o Rasga-em-Baixo se fartou no chão, semeado, já sem ação e sem alma nenhuma dentro. E aí o irmão dele, José Félix: ele tremeu muito lateral; livrou o ar de sua pessoa; outro tiro eu também tinha dado...
— “...é o Chefe?!...”
João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas José Olympio. Rio de Janeiro. 1ª edição. 1956.
O vaqueiro Cicica: A mariice de tarefas. O vaqueiro Doim: Ele não tem mereces.
O vaqueiro Cicica: Não, isso, ter, tem. O homem é pago pra não conhecer sossego nenhum de idéia: pra estar sempre cantando modas novas, que carece de tirar de-juízo. É o que o Velho quer.
Moimeichego: O Velho?! Quem é o Velho?
O vaqueiro Cicica: (olhando para Moimeichego, e depois de pausa): O senhor é quem está dizendo que o nome não entende, pois não.
O vaqueiro Adino: Ih, exige que, como está sendo, nos prazos, o cantador tem de produzir alto assim uma trova. Lá do quarto, ele ouve, se praz.
Moimeichego: O “Velho”...?
O vaqueiro Cicica: Antão, pois — que-que falo: é ele. Sou cativo de ninguém, minha boca é forra, falo o que é: é o Cara-de-Bronze!
Iinhô Ti: Cara-de-Bronze. Isto são alcunhas...
O vaqueiro Cicica: “Velho” não é alcunhas, é nome-de-lei.
O vaqueiro Adino: Nome dele é Sigisbé. O vaqueiro Mainarte: Sejisbel Saturnim...
O vaqueiro Cicica: Xezisbeo Saturnim, eu sei. Mas “Velho”, também. “Velho” não é graça — é sobrenomes... O vaqueiro Sacramento: Homem, não sei. Em que sube, toda-a-vida, é Jizisbéu, só... O vaqueiro Doim: Zijisbéu Saturnim... O vaqueiro Sacramento: Jizisbéu Saturnim, digo.
O vaqueiro Cicica: Vocês... Ara, evém quem ensina. Aquele... (a Moimeichego:) O senhor não quer ouvir? O senhor pergunte a ele. Moimeichego: O alto, com a coroça? O vaqueiro Cicica: O com a caroça não, o em corpo. O Tadeu, ele é antigo, sempre viveu aqui. Ele sabe.
Um José Misuso uma vez estava ensinando a um Etelvininho, a troco de quarenta mil-réis, como é que se faz a arte de um inimigo ter de errar o tiro que é destinado na gente. Do que deu o preceito: — “...Só o sangue-frio de fé é que se carece — pra, na horinha de encarar o outro, e um grito pensar, somente: “Tu erra esse tiro, tu erra, tu erra, a bala sai vindo de lado, não acerta em mim, tu erra, tu erra, filho de uma cã!...” Assim ele ensinou ao Etelvininho, o Misuso. Mas, aí, o Etelvininho reclamou: — “Ara, pois, se é só isso, só issozinho, pois então eu já sabia, mesmo por mim, sem ninguém me ensinar — já fiz, executei assim, umas muitas vezes...” “— E fez igualzinho, conforme o que eu defini?” — indagou o José Misuso, duvidando. — “Igualzinho justo. Só que, no fim, eu pensava insultado era: ...seu filho duma cuia!...” — o Etelvininho respondeu. — “Ah, pois então” — o José Misuso cortou a questão — “...pois então basta que tu me pague só uns vinte milréis...”
A gente muito rimos todos. A hora a ser de satisfa, alegrias sobejavam. Se caçoou, se bebeu, um cantou o sebastião. Mansinho, mãe, chegaram as voltas da noite. Dormi com a cara na lua.
Acordei. A madrugada com luar, me lembro, acordei com o rumor de cavaleiros que vinham chegando, no esquipado, e que travavam repentino com áspero estremecimento os cavalos: br’r’r’uuu... Calculei: uns dez. ao que eram. Levantei, pulando de minha rede, quem podiam esses ser? Todos os companheiros nos rifles, e eu não tinha escutado aviso de sentinelas. Madrugada essa boa claridade. Luar que só o sertão viu. Vim dele.
— “Aí é o nosso João Goanhá, com os cabras...” — disse Diadorim, que tinha a rede dele armada da minha a uns três passos. Assim era. João Goanhá, o Paspe, Drumõo, o compadre Ciril, o Bobadela, o Isidoro... Tornar a encontrar companheiros desses, aí é que se põe significado na vida, se encompridando se encurtando. O João Goanhá, gordo, forte, barbudo. Era a dele uma barba muito fechada, muito preta. Veio do luar, chegou bom. Todo o mundo falava, a gente se abraçavam. Com pouco o fogo se acendia, para o café, para algum almoço. Enquanto isso, Zé Bebelo, formado em pé, o mais rompante que pudesse, pedia notícias por interrogação.
João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas José Olympio. Rio de Janeiro. 1ª edição. 1956.
É logo após a orfandade de Riobaldo que o padrinho Selorico Mendes o recolhe. As condições de vida do personagem sofrem uma guinada, transitando de uma classe para outra: até então fora membro anônimo da plebe rural, agora passará a integrar o seleto grupo dos proprietários. O cotidiano muda radicalmente. Além de ser hóspede do dono de uma boa fazenda de gado, começará a receber educação formal, por alvitre do anfitrião. Para tanto, transfere-se para uma localidade próxima, Curralinho, onde Mestre Lucas lhe ensina as primeiras letras, as quatro operações e um pouco de conhecimentos gerais — isso quando ainda se incutia o saber a palmatória. Riobaldo sai-se bem, a ponto de ser nomeado assistente, encarregado de repassar a aprendizagem para os alunos mais atrasados. E extrairá de Mestre Lucas a observação de que poderia dar um bom professor.
Por volta dessa época, o protagonista tem seu primeiro contacto com um bando de jagunços, que chega e arrancha na fazenda de Selorico Mendes. O padrinho de Riobaldo, além de coiteiro, era admirador de valentões, não se cansando de cantar em verso e prosa a gesta dos jagunços, bem como de se vangloriar dos laços que entretinha com muitos deles. O protagonista, ainda garoto ou no máximo adolescente, ficou deslumbrado. O bando era nada menos que aquele capitaneado por Joca Ramiro, o mais ilustre chefe de jagunços de então; Riobaldo fica boquiaberto ante o magnetismo de sua presença. Trava conhecimento igualmente com os dois lugar-tenentes do chefe, Ricardão e Hermógenes, ante este último reagindo com desagrado, cismando com algo indefinido. Ambos, como se verá, influirão em sua trajetória futura, por outras razões.
É depois dessas duas experiências marcantes e definidoras de seu destino, ocorridas enquanto morava na fazenda de Selorico Mendes — o aprendizado das letras e a iniciação à jagunçagem —, que Riobaldo foge, tomado de desgosto ao saber por acaso que o padrinho era na verdade seu pai. Não será a última vez que, indeciso como sempre e tendo sua vontade comandada por outrem, recorrerá à fuga. Jamais reveria o pai.
Seu destino de jagunço-letrado está sendo tramado, combinação da qual decorre em larga medida a verossimilhança de uma prospecção tão aguda do movimento psicológico e social da vida, afora a capacidade de comunicá-la em discurso requintado.
Apelando para Mestre Lucas no Curralinho, este lhe arranja um emprego de professor numa fazenda próxima; e é assim que outro acaso, emendando-se aos anteriores, vai tramando a urdidura do destino de Riobaldo.
Mas Zé Bebelo, acabando de saber o acontecido, mirou em mim, somente, poupado risonho:
— “Tal te fica bem, Professor, amontado nesse estampo, queremos havemos de te ver garboso, guerreando as boas batalhas... Em hora!...” — foi o que ele disse, se me seja que gostou pouco. Choveu para o meu arrozal! Ah, mesmo só inteligência, só, era que era aquele homem... Desapeei.
Como por um rasgo, para solércias, dei o cabresto ao Fafafa. Disse: — “Tu desarreia, amilha e escova, tu trata dele...” —; e isso fiz, porque o Fafafa, que tanto gostava simples de cavalos, era o prestante para cuidar dum animal, em mesmo que dele não sendo. Mas eu tinha dado uma ordem. Assim me refiz. E o seô Habão tinha trazido também boa quantidade de remédio para se tomar pela maleita, das pastilhas mais amargosas. Todo o mundo recebia.
Saí, uns passos. Eu estava dando as costas a Zé Bebelo. Ele podia, num relance, me agredir de morte, me atirar por detrás... — atentei. Esbarrei em meu caminhar, fiquei assim parado, assim mesmo. O medo nenhum: eu estava forro, glorial, assegurado; quem ia conseguir audácias para atirar em mim? As deles haviam de amolecer e retombar, com emortecidos braços; eu podia dar as costas para todos. O que o Drão — o demonião — me disse, disse; seria só? Olhei para cima: pegaram nas nuvens do céu com as mãos de azul. Aquela firme possança; assim permaneci, outro tempo, acendido. Eu leve, leve, feito de poder correr o mundo ao redor. Ao senhor eu conto, direto, isto como foi, num dia tão natural. Será que, de cousas tão forçosas, eu ia poder me esquecer? Aquele dia era uma véspera.
Em tanto o seô Habão jantou com a gente. Raymundo Lé repartiu com os carecidos as pastilhas de remédio. Diadorim meu amigo estava. Zé Bebelo me chamou adeparte, me expondo especializado diversas coisas que pretendia reformar de fazer. Alaripe conversou comigo. E dessa derradeira conversa quero referir ao senhor. Foi que, eu puxando, eu desejando saber, se falou muito nessas orações de curar a gente contra bala de morte, e em breves que fecham o corpo. Alaripe então contou uma estória, caso sucedido, fazia tempos, no giro do sertão. O qual era o seguinte.
João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas José Olympio. Rio de Janeiro. 1ª edição. 1956.
O vaqueiro Cicica: Isto, em alguma ocasião o senhor já viu? De se lidar com o gado debaixo de temporal?
Iinhô Ti: Em verdade.
O vaqueiro Cicica: O senhor sabendo: que quando se determinou esta ajunta, já estava no talvez de chover. Mas, agora, os senhores vieram. Então, era porque vinham vir...
Iinhô Ti: Também sou mandado, somos, companheiro. Patrão risca, a gente corta e cose.
O vaqueiro Cicica: A bem. E é deveras que as boiadas todas vão ter de ser despachadas no meio-das-águas, às pressas, boi em pé, que é porque de repente deu falta de carne nas cidades?
Seo Sintra (se aproximando): Isso exato não é, amigo. Seu fazendeiro quis vender, por isso meus chefes querem comprar. Tempo é tempo. Mas daqui é que saiu a mãe da urgência...
O vaqueiro Doim (ao vaqueiro Cicica): Pois então, é mesmo, que se disse: o Velho tencionando apurar tudo o que tem, no bom dinheiro...
O vaqueiro Adino: Somente seja! Ele é o dono.
O vaqueiro Mainarte: Tudo, então não. Os gados.
O vaqueiro Sacramento: É. Nessas suas terras, ele agarra...
O vaqueiro Doim: Vender, vendeu; sempre há-de ter fazenda aqui, carecendo de campeiros.
O parajá passou. Só chuvisca. O violeiro, da varanda:
Buriti, minha palmeira:
Mamãe verde do sertão —
Vou soltar meus tristes gados
Nesta alegre pastação...
Moimeichego: Quem é esse, que canta? Ele é daqui? E não trabalha? É da família do dono?
O vaqueiro Cicica: Esse um? É cantador, somentes. Violeiro, que se chama João Fulano, conominado “Quantidades”... Veio daí de riba, por contrato.
Iinhô Ti: Contrato p’ra cantar?
O vaqueiro Doim: Duvidar, ganha mais do que a gente. Essas coisas...
O vaqueiro Sacramento: Derradeiros tempos, aqui sempre hospedaram uns assim, de músicos.
O vaqueiro Adino: Tantos! Um morreu: o cego Pôncios... Deixou o instrumento: sanfona de quarenta-e-oito baixos...
O vaqueiro Sacramento: Este, o Mainarte e eu tivemos de ir buscar longe, na Branca-Laje. E, foi, ficou aqui, faz tempo...
O vaqueiro Adino: Que não dirá, quase um ano. Danado! Este canta o tempo todo...
O seô Habão estava ali, me desentendeu nos olhos. Ele ficou a vermelho. Mas eu acho que, homem só vendido ao dinheiro e ao ganho, às vezes são os que percebem primeiro o atiço real das coisas, com a ligeireza mais sutil. Ele não gaguejou. Melhor me disse:
— Se este praz ao senhor... Se ele praz ao senhor... Lhe dou, amigavelmente, com bom agrado: assim como ele está, moço, ele é seu...”
Não acreditei? Reafirmo ao senhor: meu coração não pulsou dúvidas. Agradeci, com meu brio; peguei a ponta do cabresto. Agora, daquela hora, era meu o cavalo grande, com suas manchas e riscas — ah, como ele pisavo peso no chçao, e como ocupava tão grande lugar! Até passeei um carinho nas faces dele, e pela tábua-do-pescoço a fora. Meu o bicho era, por posse, e assim revestido, conforme estava — que era com um socadinho bom, com caçambas de pau. Mas sendo que, dividido o instante, eu já ali pensei: por que seria que o seô Habão se engraçava de me presentear de repente com uma prenda dum valor desse, eu que não era amigo nem parente dele, que não me devia obrigação, quase que nem me conhecia:? Aos que projetos ele engenhava em sua mente, que possança minha ele adivinhava? A pois, fosse. Aquele homem me temia? Da admiração de meu povo todo, dei fé, borborinho com que me rodeavam. Certo, deviam de estar com invejas. Fosse! E a mãe!... A primeira coisa, que um para ser alto nesta vida tem de aprender, é topar firme as invejas dos outros restantes... Me rejo, me calejo! Só por causa daquele cavalo, até, eu fui ficando mais e mais, enfrentava. Não me riram.
— “É deveras... Animal de riqueza: graúdo, farto e manteúdo...”
— “Sorte é isto. Merecer e ter...”
— “Ainda bem que foi bem empregado...”
Só dissessem. Disfarcei meu regozijo. Disse logo foi a tenção de maiores idéias em desejos — segundo a como apeirado aquele eu já queria: que arreado à gaúcha, com peitoral com pratas em meia-lua, e as peças dos arreios chapeadas de belo metal.
— “Ara, que assim ouvi, Tatarana: o nome que ele vai se chamar é mesmo Barzabu?” — algum caçoou de me perguntar.
— “A não, meu compadre torto! Sossega a velha... Nome que dou a ele, d’ora em diante, conferido, é este — quem quer aprender, aprende! — que é: o cavalo Siruiz!...” — assim foi que eu respondi, sem tempo nenhum para pensamento. Montei.
Ah, as coisas influentes da vida chegam assim sorrateiras, ladroalmente. Pois Zé Bebelo estava aparecendo ali, e eu atinei, ligeiro, com o que não tinha refletido. Ao que: oferecer e receber um presente daquele, naquelas condições, era a mesma coisa que forte ofender Zé Bebelo. Um dom de tanto quilate tinha de ser para o Chefe. Reconheci, aí. Mas não tirei para trás. Não desapeei. É de ver que, conforme em mim, nesses enquantos, eu já devia de estar fitando Zé Bebelo com um certo desprezo. Ia haver o que ia haver, e eu não me importei. Um qualquer chefe de jagunço havia de ter ímpeto de resolver aquilo fatal. Aí, esperei. Teria sido uma tenção dessas, de arder a desordem no meio nosso, a razão do seô Habão? Pensei o dito, num interim. E pensei pontudo em minhas armas.
João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas José Olympio. Rio de Janeiro. 1ª edição. 1956.
Que’s borboletas! E era em maio, pousamos lá dois dias, flor de tudo, como sutil suave, no conhecimento meu com Otacília. O senhor me ouviu. Em como Otacília e eu ficamos gostando um do outro, conversamos, combinados no noivável, e na sobremanhã eu me despedi, ela com sua cabecinha de gata, alva no topo da alpendrada, me dando a luz de seus olhos;
Me alembro, meu é. Ver belo: o céu poente de sol, de tardinha, a roséia daquela cor. E lá é cimo alto: pintassilgo gosta daquelas friagens. Cantam que sim. Na Santa Catarina. Revejo. Flores pelo vento desfeitas. Quando rezo, penso nisso tudo. Em nome da Santíssima Trindade.
Só sim? Ah, meu senhor, mas o que eu acho é que o senhor já sabe mesmo tudo — que tudo lhe fiei. Aqui eu podia pôr ponto. Para tirar o final, para conhecer o resto que falta, o que lhe basta, que menos mais, é pôr atenção no que contei, remexer vivo o que vim dizendo. Porque não narrei nada à-toa: só apontação principal, ao que crer posso. Não esperdiço palavras. Macaco meu veste roupa. O senhor pense, o senhor ache. O senhor ponha enredo. Vai assim, vem outro café, se pita um bom cigarro. Do jeito é que retorço meus dias: repensando. Assentado nesta boa cadeira grandalhona de espreguiçar, que é das de Carinhanha. Tenho saquinho de relíquias.
E, em relance em mais, eu já estava carecendo de declarar aos companheiros todos os erros que vínhamos pagando, por motivo do ultimamente, conforme agora eu ladino deduzia. Disse, com modos, ao próprio Zé Bebelo, que isto de mim escutou:
— “...Sem tenção de descrédito ou ofensa, Chefe, mas duvido de que bem fizemos em restar todos aqui, comprando cura de doenças. Mais ajuizado certo não seria se ter remetido meia-dúzia de cabras, dos sãos, que tivessem ido buscar a munição nesse lugar, a Virgem-Mãe, e trazer? Munição já estava aqui, e a gente estava mais garantidos...”
Zé Bebelo em mal amargo — ele espinoteou com a cabeça, arejou os queixos. Desde, depressinha, me explicou a maior razão, com palavras baixas. Porque ele de tudo já soubesse: foi então que me disse que o extravio nosso tinha sido mais completo; porque a gente tinha vindo em má rota, em vez da Virgem-Mãe para a Virgem-da-Laje. Eu escutei, tei. Em outras ocasiões, uma notícia dessas era capaz de me perturbar. Mas, dessa viagem, eu achava até divertido. Figuro explicando ao senhor: desde por aí, tudo o que vinha a suceder era engraçado e novo, servia para maiores movimentos. Com essas levezas eu seguia a vida.
Quando, então, trouxeram reunidos todos os animais, estavam ajuntando a cavalhada. Regulava subida manhã, orçado o sol, e eles redondeavam no aprazível — tropilha grande, pondo poeira, dado o alvoroço de muitos cascos. Fiz um rebuliz? Dou confesso o que foi: era de mim que eles estavam espantados. Aí porque a cavalaria me viu chegar, e se estrepoliu. O que é que cavalo sabe? Uns deles rinchavam de medo; cavalo sempre relincha exagerado. Ardido aquele nitrinte riso fininho, e, como não podiam se escapulir para longe, que uns suavam, e já escumavam e retremiam, que com as orelhas apontavam. Assim ficaram, mas murchando e obedecendo, quando, com uma raiva tão repentina, eu pulei para o meio deles: — “Barzabu! Aquieta, cambada!” — que eu gritei. Me avaliaram. Mesmo pus a mão no lombo dum, que emagreceu á vista, encurtando e baixando a cabeça, arrufava a crina, conforme terminou o bufo de bufor.
Notei que os companheiros reparavam a estranhez daquilo, dos cavalos e as minhas maneiras. Só que se riam, formados no costume de jagunços, que é de frouxas essas leviandades. — “Barzabu!” — õ gente!, feito fosse minha certeza, o Das-Trevas. E eu parava, rente, no meio de todos, que de volta aceitavam minha presença, esses cavalos.
— “Tu sendo peão amansador domador?!” — que o Ragásio caçoou comigo. Mas eu me virei, e já se ouvia outro tropel: era aquele seô Habão, que chegava. Vinha com três homens, estroteantes — gentinha trabalhosa. E o animal dele, o gateado formoso, deu que veio se esbarrar ante mim. Foi o seô Habão saltando em apeio, e ele se empinou: de dobrar os jarretes e o rabo no chão; o cabresto, solto da mão do dono, chicoteou alto no ar. — “Barzabu!” — xinguei. E o cavalão, lão, lão, pôs pernas para adiante e o corpo para trás, como onça fêmea no cio mor. Me obedecia. Isto, juro ao senhor: é fato de verdade.
Retomando o itinerário dos dois mensageiros, sabemos que eles, saindo da divisa de Minas com Goiás, à altura do rio São Domingos, vieram pelos altos do rio Acari, rumo do São Francisco. E passam o rio: “Passamos numa barca. Só sempre bater para o nascente, diretamente em cima de Tremedal, chamada hoje Monte Azul. Sabíamos: um pessoal nosso perpassava por lá, na Jaíba, até à Serra Branca, brabas terras vazias do rio Verde Grande.”
Jaíba, já se sabe onde é: a famosa Serra da Jaíba, que acompanha o rio Verde Grande. E Serra Branca, uma vila nas margens do rio do mesmo nome, situada no município de Porteirinha. Esse rio deságua no rio Salinas, que por sua vez deságua no Gorutuba, que por sua vez aflui no rio Verde Grande.
Tão logo contataram com o pequeno bando do João Goanhá, receberam más notícias dos demais companheiros: “Sô Candelário? Morto em tiroteio de combate, metralhadoras tinham serrado o corpo dele, de esguelha, por riba da cintura. O Alípio, preso, levado para a cadeia de algum lugar. Titão Passos? Ah, perseguido por uma soldadesca, tivera de se escapar para a Bahia, pela proteção do coronel Horácio de Matos. Só mesmo João Goanhá era quem ainda estava. Comandava saldo de uns homens, os poucos.”
Foram ainda informados que os judas, reforçados, iam atravessar o rio São Francisco em dois bandos, para acabar com Medeiro Vaz. Decidiu-se então todos procurar ir em socorro de Medeiro Vaz, na margem esquerda do rio. Mas não puderam. Foram atacados pelos soldados e fizeram os seguintes combates, inferiorizados em homens e munições: Cachoeira do Salto, Jacaré Grande, Jatobá Torto, Furado do Meio, Serra do Deus me Livre, Passagem da Limeira, Chapada do Covão, Chapada do Sumidouro, Córrego do Poldro, Gerais de Pedra, Serra Escura.
Dentre os topônimos acima, podemos estabelecer o seguinte itinerário: Jacaré Grande, município de Itinga; Covão, município de Salinas; Chapada do Sumidouro, córrego do Poldro, município de Rio Pardo de Minas.
Já então o bando se dispersara, saindo aos dois e aos três, para safar-se dos soldados de qualquer maneira. Riobaldo se desvia em companhia novamente de Sesfredo, para o rumo de Araçuaí. Ali, no córrego Cansanção, trabalhou de minerador, depois de guardar em lugar seguro as armas e roupas de cangaceiro.
A ordem de João Goanhá, ao dispersar o bando, fora a seguinte: “Quem vivesse viesse para cá do Rio, para reunião, na juntura da Vereda Saco dos Bois com o ribeirão Santa Fé.”
A atividade de perseguição dos soldados fez com que os dois — Riobaldo e Sesfredo — fossem parar no município de Araçuaí, no córrego Cansanção, onde trabalharam na mineração. “Pordurante um tempo, carecíamos de ter algum serviço reconhecido, no viver tudo cabe. Nossas armas, com parte das roupas, campeamos um seguro lugar, deixamos escondidas. Aí, a gente se ajustou no meio do pessoal daquele doutor, que estava na mineração que eu já disse e o senhor sabe.”
Trabalhando como simples garimpeiros, os dois cangaceiros conseguem safar-se da perseguição dos soldados, até que as coisas esfriem. Quando tudo se acalma, resolvem ir embora, em busca do bando de Medeiro Vaz, do lado de lá do Rio. Aí acontece uma grande surpresa: Riobaldo é reconhecido por um mascate alemão, Emílio Wupes, que com ele estivera muitos anos antes, em Curralinho. Wupes então contrata Riobaldo e Sesfredo como guarda-costas, até a cidade de São Francisco. Saem os três de Araçuaí, rumo noroeste, passando por Grão Mogol, Brejo das Almas e Brasília, hoje Brasília de Minas, e chegam finalmente à cidade de São Francisco, na beira do rio. Ali termina o contrato de capangagem e proteção ao alemão Wupes.
Alan Viggiano em Itinerário de Riobaldo Tatarana Comunicação / MEC. Belo Horizonte / Brasília. 1974.
Daqui veio que Diadorim mesmo estranhou aqueles meus modos. A entender me deu, e eu reminiquei, com soltura de palavras: como é que ia tolerar conselho ou contradição? Agravei o branco em preto. Mas Diadorim perseverou com os olhos tão abertos sem resguardo, eu mesmo um instante no encantado daquilo — num vem-vem de amor. Amor é assim — o rato que sai dum buraquinho: é um ratazão, é um tigre leão!
Conferindo que nem vergonha eu tive. Não ter vergonha como homem, é fácil; dificultoso e bom era poder não se ter vergonha feito os bichos animais. O que não digo, o senhor verá: como é que Diadorim podia ser assim em minha vida o maior segredo? De manhã, naquele mesmo dia, ele tinha conversado, de me dizer:
— “Riobaldo, eu gostava que você pudesse ter nascido parente meu...”
Isso dava para alegria, dava para tristeza. O parente dele? Querer o certo, do incerto, coisa que significava. Parente não é o escolhido — é o demarcado. Mas, por cativa em seu destinozinho de chão, é que árvore abre tantos braços. Diadorim pertencia a sina diferente. Eu vim, eu tinha escolhido para o meu amor o amor de Otacília. Otacília — quando eu pensava nela, era mesmo como estivesse escrevendo uma carta. Diadorim, esse, o senhor sabe como um rio é bravo? É, toda a vida, de longe a longe, rolando essas braças águas, de outra parte, de outra parte, de fugida, no sertão. E uma vez ele mesmo tinha falado: — “Nós dois, Riobaldo, a gente, você e eu... Por que é que separação é dever tão forte?...” aquilo de chumbo era. Mas Diadorim pensava em amor, mas Diadorim sentia ódio. Um nome rodeante: Joca Ramiro — José Otávio Ramiro Bettancourt Marins, o Chefe, o pai dele? Um mandado de ódio. No que eu sabia. Não venci as ácidas picuinhas, no relembrar:
— “Aquele, hora destas, deve de andar lá por entre o Urucuia e o Pardo... O Hermógenes...”
Ele acinzentou a cara. Tremeu, aos pingos, no centrozinho dos olhos. Revi que era o Reinaldo, que guerreava delicado e terrível nas batalhas. Diadorim, semelhasse maninel, mas diabrável sempre assim, como eu agora eu estava contente de ver. Como era que era: o único homem que a coragem dele nunca piscava; e que, por isso, foi o único cuja toda coragem às vezes eu invejei. Aquilo era de chumbo e ferro.
Os vaqueiros desembainhavam de suas capas de couro os ferrões. — É uma arma!... Peneirava a bruega, finazinha. No descarte, no lanço do curral-de-aparta, os bois não entendiam que não devessem seguir juntos, prensavam-se avante — o retrupo, moçoçoca — ferindo-se no cru dos ferros, nas choupas das varas, ou enrolando-se num remoinho, metade em reviravinda, metade no mopoame da revolta. Praguejos. Catatraz de porretada no encaixe do chifre, e chuçada de tope, de arriba-à-barba. — Que’s fumega!... Defecavam mole, na fúria; cada um, com o espancar-se de cauda, todo se breava. Jogavam trampa, lama, pedaços de baba. Sangue, que escorre até ao pé da rês — fio grosso e fios finos. Outros levantavam os queixos, já inflamados, largo inchaço, ou guardavam suas caras em véus de sangue, cortinas carnais, máscaras — coagulado ou a escorrer, sangue fresco e sangue seco — placas, que os cegavam. Encostavam-se as cabeças, se uniam mais, num amparo necessitado. Separar bois, se separa as ondas do mar.
(O CANTADOR na varanda:
Buriti dos Gerais verdes, Quem te viu quer te ver mais: Pondo o pé nas águas beiras — buriti, desses Gerais...)
O VAQUEIRO ZAZO (com duas varas-de-topar, cada de dois-metros-e-meio, certos, uma de ipê e a outra de acá, que ele chama de pêssego-do-mato): — Ôi, jerico-jegue! (Escolhendo a vara mais própria:) — Eh, tenho de teimar esse trem...
É preciso lidar com diligência, mesmo durante o toró da chuva: outra boiada está para vir entrar. No Urubuquaquá, nestes dias, não se pagodeia — o Cara-de-Bronze, lá de seu quarto de achacado, e que ninguém quase não vê, dá ordens.
João Guimarães Rosa “Cara-de-Bronze” em Corpo de Baile (Sete Novelas) 2º volume José Olympio. Rio de Janeiro. 1ª edição. 1956.
Eu tinha enjôo de toda pasmacez. Com Zé Bebelo, falei:
— “Chefe, o que se tem de obrar: enviar algum comparsa esperto, que cace de entrar para o bando dos Judas, para no meio deles observar o serviço que se passa, e remeter para a gente as notícias e deixar traço nos lugares. Ou que mesmo dê jeito de liquidar mãomente o Hermógenes — proporcionando venenos, por um exemplo...”
— “A maluqueira, Tatarana, isso que Você está definindo...” — Zé Bebelo me contestou.
— “Maluqueiras — é o que não dá certo. Mas só é maluqueira depois que se sabe que não acertou!” — eu atalhei, curto; porque eu naquela hora achava Zé Bebelo inferior; e porque, que alguém falasse contra, por cima das minhas palavras, me dava raiva.
Zé Bebelo retardou em me rever. Do fim, o dizer:
— “Um homem, para a façanha assim, só mesmo se...”
— “Sol procura é as pontas dos aços...” — eu cortei, sem meio medir o razoado. Ao tanto que Zé Bebelo completava:
— “...Só eu... ou você mesmo, Tatarana. Mas a gente somos garrotes remarcados.”
Mas, daí, me entendendo bem, ele fechou assim:
— “Riobaldo, tu é um homem de estúrdia valia...”
A dado sincero; eu senti. Ao perante diante de minhas presenças, todos tinham mesmo de ser sinceros. Só nos olhos das pessoas é que eu procurava o macio interno delas; só nos onde os olhos.
O José Vereda cachimbava, sentado perto de seus pertences. O Balsamão estava ali junto. Esse era maneiras-grossas, homem de muito sobrecenho. Derradeiramente eles estavam muito amigos, mesmo porque os dois eram da mesma terra — geralistas das campinas. Má vontade me veio, de dizer, eu disse:
— “Assunto aí não é capaz que haja? Torto, torto, nasceu morto... Olh’ lá, caso se um de vocês tem mulher bonita e nova, quando retornarem para casa...” Isso podia ser razão de desguisado. Eu queria rixar? Figuro de cientificar ao senhor: o costume meu nunca tinha sido esse. Agora, era que eu me espiritava só para arrelias e inconveniências. E, aí, quando uns estavam querendo tirar oração, por ser dia de domingo, não estive que não falasse: — “Reza é começo de quaresma...” Os que riram, riram. Foram deixando de lado aquela mexida igrejeira. Apondo em balança, que é que isso me representava? Tudo eu palpava com os pés, nisso eu respingava um tardar.
Rios bonitos são os que correm para o Norte, e os que vêm do poente — em caminho para se encontrar com o sol.
Vento que vem de toda parte. Dando no meu corpo, aquele ar me falou em gritos de liberdade. Mas liberdade — aposto — ainda é só alegria de um pobre caminhozinho, no dentro do ferro de grandes prisões. Tem uma verdade que se carece de aprender, do encoberto, e que ninguém não ensina: o beco para a liberdade se fazer. Sou um homem ignorante. Mas, me diga o senhor: a vida não é cousa terrível?Lengalenga. Fomos, fomos.
E como cada vereda, quando beirávamos, por seu resfriado, acenava para a gente um fino sossego sem notícia — todo buritizal e florestal: ramagem e amar em água. E que, com nosso cansaço, em seguir, sem eu nem saber, o roteiro de Deus nas serras dos Gerais, viemos subindo até chegar de repente na Fazenda Santa Catarina, nos Buritis-Altos, cabeceira de vereda.
Eu estava, com efeito, relatando mediante certos floreados umas passagens de meus tempos, e depois descrevendo, por diversão, os benefícios que os grados do Governo podiam desempenhar, remediando o sertão do desdeixo. E, nesse falar, eu repetia os ditos vezeiros de Zé Bebelo em tantos discursos. Mas, o que eu pelejava era para afetar, por imitação de troça, os sestros de Zé Bebelo. E eles, os companheiros, não me entendiam. Tanto, que foi só entenderem, e logo pegaram a rir. Aí riam, de miséria melhorada.
— “Os mestres, que está certo, amigo...” — o Alaripe dissesse.
— “Deveras, está certo, mano-velho...” — outro, o Rasga-em-Baixo, inteirou.
Aquilo não tolerei. Esse vesgueiro Rasga-em-Baixo, o qual entornava de lado a cabeça, gastando ar demais, o que respirava três vezes forte, e fuchicando o nariz, numa fungação. Desentendi e impliquei.
— “Certo de que, nesta vida? Pois eu nem costumo nunca xingar ninguém de filho daquela ou dessa, por receio de que seja mesmo verdade...”
Assim a eles eu disse. Tanto enquanto riam, apreciando me ouvir, eu contei a estória de um rapaz enlouquecido devagar, nos Aiáis, não longezinho da Vereda-da-Aldeia: o qual não queria adormecer, por um súbito medo que nele deu, de que de alguma noite pudesse não saber mais como se acordar outra vez, e no inteiro de seu sono restasse preso.
Mais me acudim dessas fantasias. E eu relanceei, de repente, e falei o que era que a gente precisava:
— “Urgentemente é se mandar portador, a lugar de farmácia, comprar adquirido remédio forte, que há, para se terminar com a maleita, em definitividade!”
Disse, e daí todos aprovaram; mais Zé Bebelo com aquilo concordou, de imediato. Portador foi.
João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas José Olympio. Rio de Janeiro. 1ª edição. 1956.
Há um grupo de construções que se caracterizam por ter um verbo principal de que são objeto duas ou mais orações cujos modos verbais diferem: passa-se do indicativo ao subjuntivo ou do subjuntivo ao indicativo. Têm todas em comum o fato de que o modo exigido pelo verbo regente vem em primeiro lugar, o que dá a impressão de que, como acontece muito na língua coloquial, o pensamento do narrador muda de direção a partir de certo ponto do período:
“Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos gerais”3ª edição, p. 9
“O que eu tinha de querer era que nós dois saíssemos sobrados com vida, desses todos combates, acabasse a guerra, nós dois largávamos a jagunçada, íamos embora, para os altos gerais tão ditos, viver em grande persistência”p. 198
“Sabendo que, de lá em diante, jamais nunca eu não sonhei mais, nem pudesse”p. 400
“Cismei que maldavam, desconfiassem de ser feio pegadio”p. 161
“Contaram que ele aceitava comida e água, e estivesse deitado num couro de vaca, pitando e pensando”p. 243
“Ouvi os rogos do menino Guirigó e do cego Borromeu, esfregando meu peito e meus braços, reconstituindo, no dizer, que eu tinha estado sem acordo, dado ataque, mas que não tivesse espumado nem babado”p. 560
Cheguei no meio dos outros, quando o Jacaré estava terminando de coar café. — “Tu treme friúra, pegou da maleita?” — algum me perguntou. — Que os carregue!” — eu arrespondi. E mesmo com o sol saindo bom, cacei um cobertor e uma rede. Arte — o enfim que nada não tinha me acontecido, e eu queria aliviar da recordação, ligeiro, o desatino daquela noite. Assim eu estava desdormido, cisado. Aí mesmo, no momento, fui escogitando: que a função do jagunço não tem seu que, nem p’ra que. Assaz a gente vive, assaz alguma vez raciocina. Sonhar, só, não. O demônio é o Dos-Fins, o Austero, o Severo-Mór. Apôrro!
Sabendo que, de lá em diante, jamais nunca eu não sonhei mais, nem pudesse; aquele jogo fácil de costume, que de primeiro antecipava meus dias e noites, perdi pago. Isso era um sinal? Porque os prazos principiavam... E, o que eu fazia, era que eu pensava sem querer, o pensar de novidades. Tudo agora reluzia com clareza, ocupando minhas idéias, e de tantas coisas passadas diversas eu inventava lembrança, de fatos esquecidos em muito remoto, neles eu topava outra razão; sem nem que fosse por minha própria vontade. Até eu não puxava por isso, e pensava o qual, assim mesmo, quase sem esbarrar, o todo tempo.
Nos começos, aquilo bem que achei esquipático. Mas, com o seguinte, vim aceitando esse regime, por justo, normal, assim. E fui vendo que aos poucos eu entrava numa alegria estrita, contente com o viver, mas apressadamente. A dizer, eu não me afoitei logo de crer nessa alegria direito, como que o trivial da tristeza pudesse retornar. Ah, voltou não; por oras, não voltava.
— “Uai, tão falante, Tatarana? Quem te veja...” — me perguntaram; o Alaripe perguntou. Será que de mim debicavam.
— Ver, vi. Meio meio-de-longe, ele já estava quase entrado na porta. E o Grivo é; todo-o-mundo já sabe.)
— Hê, boi p’ra dentro!
— Hê, boi p’ra dentro!
Arre... Travavam-se no barro, de enlôo, calcurriando nas poças ou se desequilibrando no tauá de tijuco, que labêia e derreita feito ralo excremento de morcego em laje de lapa. Na coberta, ainda havia a poeira de estrume, vaporosa; mas aos tantos tudo dando em lama. E o gado queria mortes. Trusos, compassavam-se, correndo, cumprindo, trambecando, sob os golpes e gritos dos homens* (* — “É de ver!” “— Ô, jipilado, ô, ô...” “— Cruz que uns seis...” “— Coró!” “— O boi amarel’, o boi amarél...” “— Ôxe, nossenhora! Cada marretada!” “— Te açude, Sãos...” “— Essa vara no chão, vocês embaraçam nela... Êsse pau comprido te embaralha...” “— O garrote também é de ir?” “— É grande, mas não tem era.” “— Êsse boi sapecado não tem era?” “— O boizinho, não. Ele é miudinho, mas é velhado...” “— Põe a lei no lugar!” “— Assim, não! Você é mão de desajuda...” “— Sou três de ofício...” — “Teu o tu... hum... Saudade da senzal’? Negro gosta de dormir de dia...” — “Dei o baixo da minha voz.” “— Pra cangalha, suor de burro...” “— Ri sem fechar os olhos, Zazo! A gente aqui olha, e outro é que vê...” “— Oi o boi mocho; vai irá?” “— Só serve p’ra não ser...” “— U’! Quero te ver na magrém entrante!” “— Denoto que êsse boi tem o 2, mas tem o contraferro do Crioulo, adiante... Repara: um rôr de ferros. Pode ser do Carolino. Ele tem carimbo de LL na cara...” “— Hhê, ê’ lá!” “— Ué, quer me espremer aqui, uai!” “— Hoje, eu não tou me podendo. Tou é p’ra namoro com mulher...” “— A lama aqui escorrega a gente para trás, que não tem emgambêlo...”
— Eh boi! Ê boi!
— Eh, boi-vaca!...); mas de vezvez destornavam-se, regiro-giro, se amontoando, resvalões, pinotes pesados, relando corpos e com chispas de chifres — ameaçavam esmagar. Embargavam-se, encontravam uma barreira de aguilhadas. De tristes e astutos, viravam gente, cobrando de humano. — “Desdói disso, juca!” — xingava o vaqueiro Sãos. “— Deserta de mim, diôgo!” — o vaqueiro Tadeu vociferava. Tinha-se para um breve desespêro, ante o aproximaço — que eram grandes testas e pontas de cornos, e um côice de vaca tunde como mãozada de pilão, e o menos que havia de pior era desgarrão ou esbarrôo.
João Guimarães Rosa “Cara-de-Bronze” em Corpo de Baile (Sete Novelas) 2º volume José Olympio. Rio de Janeiro. 1ª edição. 1956.
A mór, bem na descida, avante, branquejavam aqueles grossos de ar, que lubrinam, que corrubiam. Dos marimbús, das Veredas Mortas. Garoa da madrugada. E, a bem dizer por um caminho sem expedição, saí, fui vindo m’embora. Eu tinha tanto friúme, assim mesmo me requeimava forte sede. Desci, de retorno, para a beira dos buritis, aonde o pano d’água. A claridadezinha das estrelas indicava a raso a lisura daquilo. Ali era bebedouro de veados e onças. Curvei, bebi, bebi. E a água até nem não estava de frio geral: não apalpei nela a mornidão que devia-de, nos casos de frio real o tempo estar fazendo. Meu corpo era que sentia um frio, de si, frior de dentro e de fora, no me rigir. Nunca em minha vida eu não tinha sentido a solidão duma friagem assim. E se aquele gelado inteiriço não me largasse mais.
Foi orvalhando. O ermo do lugar ia virando visível, com o esboço no céu, no mermar da d’alva. As barras quebrando. Eu encostei na boca o chão, tinha derreado as forças comuns do meu corpo. Ao perto d’água, piorava aquele desleixo de frio. Abracei com uma árvore, um pé de breu-branco. Anta por ali tinha rebentado galhos, e estrumado. — “Posso me esconder de mim?...” Soporado, fiquei permanecendo. O não sei quanto tempo foi que estive. Desentendi os cantos com que piam, os passarinhos na madrugança. Eu jazi mole no chato, no folhiço, feito se um morcegão caiana me tivesse chupado. Só levantei de lá foi com fome. Ao alembrável, ainda avistei uma meleira de abelha aratim, no baixo do pau-de-vaca, o mel sumoso se escorria como uma mina d’água, pelo chão, no meio das folhas secas e verdes. Aquilo se arruinava, desperdiçado. Senhor, senhor — o senhor não puxa o céu antes da hora! Ao que digo, não digo?
Sapateei, então me assustando de que nem gota de nada sucedia, e a hora em vão passava. Então, ele não queria existir? Existisse. Viesse! Chegasse, para o desenlace desse passo. Digo direi, de verdade: eu estava bêbado de meu. Ah, esta vida, às não-vezes, é terrível bonita, horrorosamente, esta vida é grande. Remordi o ar:
— “Lúcifer! Lúcifer!...” — aí eu bramei, desengulindo.
Não. Nada. O que a noite tem é o vozeio dum ser-só — que principia feito grilos e estalinhos, e o sapo-cachorro, tão arranhão. E que termina num queixume borbulhado tremido, de passarinho ninhante mal-acordado dum totalzinho sono.
— “Lúcifer! Satanaz!...”
Só outro silêncio. O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais.
— “Ei, Lúcifer! Satanaz, dos meus Infernos!”
Voz minha se estragasse, em mim tudo era cordas e cobras. E foi aí. Foi. Ele não existe, e não apareceu nem respondeu — que é um falso imaginado. Mas eu supri que ele tinha me ouvido. Me ouviu, a conforme a ciência da noite e o envir de espaços, que medeia. Como que adquirisse minhas palavras todas; fechou o arrocho do assunto. Ao que eu recebi de volta um adejo, um gozo de agarro, daí umas tranqüilidades — de pancada. Lembrei dum rio que viesse adentro a casa de meu pai. Vi as asas, arquei o puxo do poder meu, naquele átimo. Aí podia ser mais? A peta, eu querer saldar: que isso não é falável. As coisas assim a gente mesmo não pega nem abarca. Cabem é no brilho da noite. Aragem do sagrado. Absolutas estrelas!
Pois ainda tardei, esbarrado lá, no burro do lugar. Mas como que já estivesse rendido de avesso, de meus íntimos esvaziado. — “E a noite não descamba!...” Assim parava eu, por reles desânimo de me aluir dali, com efeito; nem firmava em nada minha tenção. As quantas horas? E aquele frio, me reduzindo. Porque a noite tinha de fazer para mim um corpo de mãe — que mais não fala, pronto de parir, ou, quando o que fala, a gente não entende? Despresenciei. Aquilo foi um buracão de tempo.
João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas José Olympio. Rio de Janeiro. 1ª edição. 1956.
Podemos partir da mais genérica das perguntas: o que é, afinal, Grande Sertão: Veredas? De que trata essa narrativa?
Se desejássemos formular, de modo sintético, o teor do romance, diríamos que ele constitui a narrativa de um ex-jagunço que, já velho, fazendeiro abastado, resolve reconstituir pela memória a sua vida, para encontrar, talvez, seu verdadeiro sentido. Mas não se trata de rememorar a totalidade da vida, pois, cronologicamente falando, o relato inicia-se quando o protagonista-narrador Riobaldo, com cerca de 14 anos, encontra, às margens do rio de-Janeiro, um Menino, que vai-se revelar mais tarde o seu grande amigo (e amor) Diadorim, e termina quando ele abandona a vida de jagunço, uns 20 anos (??) depois, após a morte deste mesmo amigo. Ao longo desse período muitas coisas aconteceram que marcaram de tal modo a existência de Riobaldo que ele, já velho, tem necessidade de evocá-las para revivê-las, repensá-las, e, em alguns casos, exorcizá-las. O amor — conflituado — por Diadorim, suas conseqüências e desdobramentos fornecem a substância principal para o relato, mas é a angústia provocada por um Pacto que teria feito a certa altura com o diabo, o que impulsiona, talvez, o ex-jagunço às suas confidências. Como dissemos, reviver, repensar e, em certos casos, exorcizar, são as motivações que se encontram na raiz da narrativa de Riobaldo.
Para tentar esclarecer melhor o que afirmamos, seria talvez interessante fazer uma aproximação entre este projeto e o que configura outra obra — esta bastante conhecida dos leitores — conquanto distante, no tempo e no espaço, de Grande Sertão: Veredas: referimo-nos a Dom Casmurro, de Machado de Assis. O relato de Bentinho já velho, transformado em Dom Casmurro, cobre também apenas uma fase de sua vida (que, por coincidência, se inicia, igualmente, quando o personagem andava pelos 15 anos de idade), centrada no amor por Capitu, e termina com o desmoronamento desse amor, motivado pela traição (real ou imaginária — não importa) da mesma Capitu. Para Bentinho, como para Riobaldo, o amor se faz a força determinante da vida e o seu desenlace abrupto (tendo embora causas bem diversas) deixa em ambos uma marca profunda, que os leva, no fim da existência, ao desejo de recriar pela memória a sua trajetória para, então, tentar compreendê-la no seu sentido (ou não-sentido) essencial. O narrador machadiano, a certa altura (cap. LXVIII), afirma:
Eu confessarei tudo o que importar à minha história. Montaigne escreveu de si: ce ne sont pas mes gestes que j’escris; c’est mon essence. Ora, há só um modo de escrever a própria essência, é contá-la toda, o bem e o mal. Tal faço eu, à medida que me vai lembrando e convindo à construção ou reconstrução de mim mesmo (grifo nosso).
A “construção ou reconstrução” de si mesmo: este o propósito que une Bentinho e Riobaldo. Contudo, a situação concreta que cerca as duas narrativas impõe dois tipos bem diversos de narradores: de um lado, um homem culto, que estudou em seminário e cursou a Faculdade de Direito; do outro, um sertanejo, ex-jagunço, que teve acesso apenas às primeiras letras, ministradas por um mestre-escola de cidadezinha do interior. Muito embora esse sertanejo seja apresentado, desde o início, como alguém dotado de uma inteligência acima da média (“Ah, não é por falar: mas, desde do começo, me achavam sofismado de ladino. E que eu merecia de ir para cursar latim, em Aula Régia — que também diziam.”), de modo algum poderia assumir, com verossimilhança, uma narrativa escrita: daí a opção extremamente sábia de Guimarães Rosa de construir o seu romance sob a forma de uma narrativa oral, o que confere ao texto um tom de conversa informal, saborosa e fascinante.
E foi assim que as horas reviraram. — A meia-noite vai correndo... — eu quis falar. O cote que o frio me apertava por baixo. Tossi, até. — “Estou rouco?” — “Pouco...” — eu mesmo sozinho conversei. Ser forte é parar quieto; permanecer. Decidi o tempo — espiando para cima, para esse céu: nem o setestrelo, nem as três-marias, — já tinham afundado; mas o cruzeiro ainda rebrilhava a dois palmos, até que descendo. A vulto, quase encostado em mim, uma árvore mal vestida; o surro dos ramos. E qualquer coisa que não vinha. Não vendo estranha coisa de se ver.
Ao que não vinha — a lufa de um vendaval grande, com Ele em trono, contravisto, sentado de estadela bem no centro. O que eu agora queria! Ah, acho que o que era meu, mas que o desconhecido era, duvidável. Eu queria ser mais do que eu. Ah, eu queria, eu podia. Carecia. “Deus ou o demo?” — sofri um velho pensar. Mas, como era que eu queria, de que jeito, que? Feito o arfo de meu ar, feito tudo: que eu então havia de achar melhor morrer duma vez, caso que aquilo agora para mim não fosse constituído. E em troca eu cedia às arras, tudo meu, tudo o mais — alma e palma, e desalma... Deus e o Demo! — “Acabar com o Hermógenes! Reduzir aquele homem!...” —; e isso figurei mais por precisar de firmar o espírito em formalidade de alguma razão. Do Hermógenes, mesmo, existido, eu mero me lembrava — feito ele fosse para mim uma criancinha moliçosa e mijona, em seus despropósitos, a formiguinha passeando por diante da gente — entre o pé e o pisado. Eu muxoxava. Espremia, p’r’ ali, amassava. Mas, Ele — o Dado, o Danado — sim: para se entestar comigo — eu mais forte do que o Ele; do que o pavor d’Ele — e lamber o chão e aceitar minhas ordens. Somei sensatez. Cobra antes de picar tem ódio algum? Não sobra momento. Cobra desfecha desferido, dá bote, se deu. A já que eu estava ali, eu queria, eu podia, eu ali ficava. Feito Ele. Nós dois, e tornopío do pé-de-vento — o ró-ró girado mundo a fora, no dobar, funil de final, desses redemoinhos: ...o Diabo, na rua, no meio do redemunho... Ah, ri; ele não. Ah — eu, eu, eu! “Deus ou o Demo — para o jagunço Riobaldo!” A pé firmado. Eu esperava, eh! De dentro do resumo, e do mundo em maior, aquela crista eu repuxei, toda, aquela firmeza me revestiu: fôlego de fôlego de fôlego — da mais-força, de maior-coragem. A que vem, tirada a mando, de setenta e setentas distâncias do profundo mesmo da gente. Como era que isso se passou? Naquela estação, eu nem sabia maiores havenças; eu, assim, eu espantava qualquer pássaro.
Eram dias de dezembro, em meia-manhã, com chuva em nuvens, dependurada no ar para cair. O mõo de bois. Dos currais-de-ajunta — quadrângulos, quadrados, septos e cercas de baraúna — vários continham uma boiada, sobrecheios. A chusma de vaqueiros operava a apartação. Ainda outros, revezados, deandavam ou assistiam por ali, animados esturdiamente. Uns vestiam suas coroças ou palhoças — as capas rodadas, de palha de buriti, vindas até aos joelhos. E formavam grupos de conversa. Devagar, discutiam. Reinava lá o azonzo de alguma coisa, trem importante a suceder. Da varanda, alguém tocava alta viola. E cantava uma copla, quando, quando. Experimentava:
Buriti — minha palmeira? Já chegou um viajor... Não encontra o céu sereno... Já chegou o viajor...
E achava o fácil:
Buriti, minha palmeira, é de todo viajor... Dono dela é o céu sereno, dono de mim é o meu amor...
(— Eh, boi pra lá, eh boi pra cá!
O vaqueiro Cicica: Tais ouvindo, o que o homem está querendo relatar? Tão ouvindo?
O vaqueiro Adino: É do Grivo!
O vaqueiro Mainarte: Que será mais, que ele sabe?
— Eh, boi pra cá, eh boi pra lá!
— Eh, boi pra cá, eh boi pra lá!)
Trabalhar em três porteiras. Negavam gosto na lufa, os que apartavam. Um dia em feio assim, com carregume, malino o chuvisco, rabisco de raios; o gado era feroz. E tinham tento no que dentro da Casa estaria acontecendo. Eles, com ares de grandes novidades.
João Guimarães Rosa “Cara-de-Bronze” em Corpo de Baile (Sete Novelas) 2º volume José Olympio. Rio de Janeiro. 1ª edição. 1956.
Ele tinha que vir, se existisse. Naquela hora, existia. Tinha de vir, demorão ou jajão. Mas, em que formas? Chão de encruzilhada é posse dele, espojeiro de bestas na poeira rolarem. De repente, com um catrapuz de sinal, ou momenteiro, com o silêncio das astúcias, ele podia se surgir para mim. Feito o Bode-Preto? O Morcegão? O Xu? E de um lugar — tão longe e perto de mim, das reformas do Inferno — ele já devia de estar me vigiando, o cão que me fareja. Como é possível se estar, desarmado de si, entregue ao que outro queira fazer, no se desmedir de tapados buracos e tomar pessoa? Tudo era para sobrosso, para mais medo, ah, aí é que bate o ponto. E por isso eu não tinha licença de não me ser, não tinha os descansos do ar. A minha idéia não fraquejasse. Nem eu pensava em outras noções. Nem eu queria me lembrar de pertencências, e mesmo, de quase tudo quanto fosse diverso, eu já estava perdido provisório de lembrança; e de primeira razão, por qual era, que eu tinha comparecido ali. E, o que era que eu queria? Ah, acho que não queria mesmo nada, de tanto que eu queria só tudo. Uma coisa, a coisa, esta coisa: eu somente queria era — ficar sendo!
Deus não devia de ajudar a quem vai por santas vinganças?! Devia. Nós não estávamos forte em frente, com a coragem esporeada? Estávamos. Mas, então? Ah, então: mas tem o Outro — o figura, o morcegão, o tunes, o cramulhão, o debo, o carocho, do pé-de-pato, o mal-encarado, aquele, — o-que-não-existe!
A vida é vez de injustiças assim, quando o demo leva o estandarte.
Adjaz o campo, então eu subi de lá, noitinha — hora em que capivara acorda, sai de seu escondido e vem pastar. Deus é muito contrariado. Deus deixou que eu fosse, em pé, por meu querer, como fui.
Eu caminhei para as Veredas-Mortas. Varei a quissassa; depois, tinha um lance de capoeira. Um caminho cavado. Depois, era o cerrado mato; fui surgindo. Ali esvoaçavam as estopas eram uns caborés. E eu ia estudando tudo. Lugar meu tinha de ser a concruz dos caminhos. A noite viesse rodeando. Aí, friazinha. E escolher onde ficar o que tinha de ser melhor debaixo dum pau-cardoso — que na campina é verde e preto fortemente, e de ramos muito voantes, conforme o senhor sabe, como nenhuma outra árvore nomeada. Ainda melhor era a capa-rosa — porque no chão bem debaixo dela é que o Careca dansa, e por isso ali fica um círculo de terra limpa, em que não cresce nem um fio de capim; e que por isso de capa-rosa-do-judeu nome toma. Não havia. A encruzilhada era pobre de qualidades dessas. Cheguei lá, a escuridão deu. Talentos de lua escondida. Medo? Bananeira treme de todo lado. Mas eu tirei de dentro de meu tremor as espantosas palavras. Eu fosse um homem novo em folha. Eu não queria escutar meus dentes. Desengasguei outras perguntas. Minha opinião não era de ferro? Eu podia cortar um cipó e me enforcar pelo pescoço, pendurado morrendo daqueles galhos: quem-é-que quem que me impedia?! Eu não ia temer. O que eu estava tendo era o medo que ele estava tendo de mim! Quem é que era o Demo, o Sempre-Sério, o Pai da Mentira? Ele não tinha carnes de comida da terra, não possuía sangue derramável. Viesse, viesse, vinha para me obedecer. Trato? Mas trato de iguais com iguais. Primeiro, eu era que dava a ordem. E ele vinha para supilar o ázimo do espírito da gente? Como podia? Eu era eu — mais mil vezes — que estava ali, querendo, próprio para afrontar relance tão desmarcado. Destes meus olhos esbarrarem num ror de nada.
Esperar, era o poder meu, do que eu vinha em cata. E eu não percebia nada. Isto é, que mesmo com o escuro e as coisas do escuro, tudo devia de parar por lá, com o estado e aspecto. O chirilil dos bichos. Arre, quem copia o riso da coruja, o gritado. Arrepia os cabelos das carnes.
E não conheci arriação, nem cansaço.
João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas José Olympio. Rio de Janeiro. 1ª edição. 1956.
Mas, voltando à narrativa, se quisermos ser rigorosos, em Grande Sertão: Veredas, os planos objetivo e subjetivo de que fala Cavalcanti Proença se abrem para complicações maiores do que deixa entrever sua classificação, o que, entretanto, não a invalida.
Em primeiro lugar, o plano objetivo não é uniforme em seu desenvolvimento, porque, como vimos, apresenta dois momentos diversificados, dos quais o narrador tem consciência. No primeiro momento estão presentes fatos anteriores e posteriores à morte de Joca Ramiro (tomado, aqui, como ponto cronológico de referência). Isto é, há uma antecipação de fatos, cujo função maior é livrar a segunda parte do material que poderia cortar o desenvolvimento linear das aventuras e andanças do personagem-narrador. São momentos qualitativamente diversos por isso que apresentam feição diferente na técnica narrativa.
Por outro lado, a linha sincrônica se duplica numa linha de especulação existencial, objetivando reduzir visível e invisível à unidade inteligível; funda-se um processo prospectivo com o fim de romper o exterior para conferir o interior. Quer dizer, um processo que permitisse estancar o fluxo da realidade com o fim de apreender o duplo no unitário, eliminando a separação entre o aparente e o encoberto; e uma linha metalingüística, onde transparece a agudeza crítica do narrador consciente de sua arte e das dificuldades do tratamento da matéria bruta, a palavra, extremamente recalcitrante, mas domada pelas mãos hábeis deste “prestidigitador”. É também uma linha de especulação do fenômeno da arte literária, no trabalho dificultoso e rebelde na manipulação da palavra interferindo freqüentemente no plano do romance, o narrador orienta, ou desorienta ainda mais, o leitor, ao submeter à sua visão crítica a narrativa e as considerações sobre os fatos, no modo como os apresenta.
A linha diacrônica funciona como padrão, como paradigma — sucessão dos fatos de que derivam suas indagações —, o que produz um nítido corte entre ambas. A primeira é necessária enquanto reproduz os acontecimentos vistos pelos seus olhos e retidos pela memória; a segunda procura detectar os móveis determinantes dos fatos e suas conseqüências. Ora, se o mais importante é a palavra como veículo conceptual capaz de conduzir ao interior da realidade, segue-se que o plano objetivo, que é diacrônico, se transforma em linha subsidiária, e funciona como auxiliar do plano subjetivo.
Na verdade, a linha diacrônica é vida em realização, fazendo-se à nossa vista e com grande vantagem sobre o vivido; congelada na palavra, presta-se à revisão tantas vezes quantas quisermos. Mas tantas quantas voltarmos, outras tantas sairemos alimentando as mesmas incertezas do narrador, porque a realidade foi fixada no seu caráter dinâmico e com o fundo impermeável de seu mistério insondável. E nisso justamente deparamos com sua grandeza, uma vez que é possível descodificá-la de várias maneiras e de acordo com as perspectivas adotadas.
Nesse sentido eu vejo a arte brotando da realidade e perfazendo-se no ato criador, por um homem capaz de inventar a vida, aproximando-se da criação “divina”, como faz, aliás, exemplarmente, no conto “O Recado do Morro”, onde, partindo do grau zero a linguagem realiza “o milagre” da criação artística, através de adições a um núcleo inicial que vai ganhando contextura até alcançar a plena realização.
Dentro da linha narrativa sincrônica é preciso ainda considerar as interpolações, que funcionam como subsídio do ato interpretativo da realidade, vista e experimentada pelo personagem-narrador. Como pequenos núcleos narrativos, entretanto, as interpolações oferecem também uma linha diacrônica — a história — e uma linha sincrônica — as interrogações da história —. Vale dizer, fatos exemplares e a interpretação, pela glosa, desses fatos.
Finalmente, as duas linhas centrais — objetiva e subjetiva —, refletem dois componentes diversos, enquanto se articulam em planos diferenciados da mesma linguagem.
A primeira se arma num código de domínio comum, referencial, para expressar as situações criadas pela história do romance; a segunda não é apenas a descodificação da primeira, mas a presença dum código mais aberto no seu domínio do que o primeiro, permitindo várias leituras.
Esta constatação implica uma revelação. Quando a ação se intensifica, como natural decorrência, o ato especulativo tende à anulação; realizando-se operação inversa, a ação diminui ou se atenua, mesmo chega a anular-se. Assim, o julgamento de Zé Bebelo volta a ser, nesse sentido, o marco fundamental do romance. Reduzida a ação dos jagunços, em face do término da guerra em que estavam empenhados, a linguagem assume posição de conflito e se torna verdadeiramente a ação, pois é o veículo do perigoso jogo a que se submetem os que falam.
Colocadas as coisas deste modo, fica claro que a narrativa expressa a mesma duplicidade cuja existência vamos verificar ao tratar do mundo dos duplos dentro do romance, nas partes seguintes. Sendo assim a narrativa se conforma a um esquema dual e se constitui, de fato, na mais importante, quantitativamente, das funções bipolares, pois é a partir delas que se processa a distribuição da matéria do romance.
Afora eu. Achado eu estava. A resolução final, que tomei em consciência. O aquilo. Ah, que — agora eu ia! Um tinha de estar por mim: o Pai do Mal, o Tendeiro, o Manfarro. Quem que não existe, o Solto-Eu, o Ele... Agora, por que? Tem alguma ocasião diversa das outras? Declaro ao senhor: hora chegada. Eu ia. Porque eu estava sabendo — se não é que fosse naquela noite, nunca mais eu ia receber coragem de decisão. Senti esse intimado. E tanto mesmo nas idéias pequenas que já me aborrecendo, e por causa de tantos fatos que estavam para suceder, dia contra dia. Eu pensava na vinda de João Goanhá, e que a gente carecia de sair de novamente por ali, por terras e guerras. Pensei naquele seô Habão, que nem num transtorno? Mais não sei. E essas coisas desconvinham em mim, em espécie de necessidade. A não me apartar à-toa dali — das Veredas-Mortas!
Sombra de sombra, foi entardecendo; fuscava. Ao que eu estivesse destemido, soberbo? De mão peluda, eu firme estava. Fazia muito tempo que eu não descabia de tão em arrojo. Dou: que nunca, feito naquela hora, e em aquele dia. Somente com a alegria é que a gente realiza bem — mesmo até as tristes ações. Retrocedi de todos. De Zé Bebelo, demais: que ele havia de desconfiar, dizer o que era desordens que cabeça de homem não cogita. De Diadorim refugi. Ah, deixa a agüinha das grotas gruguejar sozinha. E, no singular de meu coração, dou dito: o que eu gostava tanto de Diadorim, tinha um escrúpulo — queria que ele permanecesse longe de toda confusão e perigos. Há-de, essa lembrança branda, de minha ação, minha Nossa Senhora ainda marque em meu favor. Deus me tenha!
— Boca-de-forno!? — Forno... — O mestre mandar?! — Faz! — E fizer? — Todo!
(O jogo.)
— Mestre Domingos, que vem fazer aqui? (bis) — Fim buscar meia-pataca pra tomar meu parati...
(Cantiga. Alvíssaras de alforria.)
Eu sou a noite p’ra a aurora, pedra-de-ouro no caminho: sei a beleza do sapo, a regra do passarinho; acho a sisudez da rosa, o brinquedo dos espinhos.
(Das Cantigas de Serão de João Barandão.)
No Urubuquaquá. Os campos do Urubuquaquá — urucuias montes, fundões e brejos. No Urubuquaquá, fazenda-de-gado: a maior — no meio — um estado de terra. A que fora lugar, lugares, de mato-grosso, a mata escura, que é do valor do chão. Tal agora se fizera pastagens, a vacaria. O gadame. Este mundo, que desmede os recantos. Mar a redor, fim a fora, iam-se os Gerais, os Gerais do ô e do ão: mesas quebradas e mesas planas, das chapadas, onde há areia; para o verde sujo de más árvores, o grameal e o agreste — um capim rude, que boca de burro ou de boi não quer; e água e alegre relva arrozã, só nos transvales das veredas, cada qual, que refletem, orlantes, o cheiroso sassafrás, a buritirana espinhosa, e os buritis, os ramilhetes dos buritizais, os buritizais, os buritizais, os buritis bebentes. Pelo andado do Chapadão, em ver o viajante é um cavaleiro pequenininho, pequenino, curvado sempre sobre o arção e o curto da crina do cavalo — o cavalinho alazão, sem nome, só chamado Quebra-Coco. Cavaleiro vai, manuseando miséria, escondidos seus olhos do à-frente, que é só o mesmo duma distanciação — e o céu uma poeira azul e papagaios no vôo. Os Gerais do trovão, os Gerais do vento.
No Urubuquaquá, não. Ali havia riqueza, dada e feita. A casa — avarandada, assobradada, clara de cal, com barras de madeira dura nos janelões — se marcava. Era seu assento num pendor de bacia. Tudo o que de lá se avistava, assim nos morros assim a vaz, seria gozo forte, o verdejante. Somente em longe ponto o crancavão dum barranco se rasgava, de rechã, vermelho de grês. Mas, por cima, azulal, ao norte, fechava o horizonte o albardão de uma serra. No Urubuquaquá. A Casa, batentes de pereiro e sucupira, portas de vinhático. O fazendeiro seu dono se chamava o “Cara-de-Bronze”.
João Guimarães Rosa “Cara-de-Bronze” em Corpo de Baile (Sete Novelas) 2º volume José Olympio. Rio de Janeiro. 1ª edição. 1956.
Pensei que ele nem fosse acreditar. Mas, juro ao senhor: ele me olhou com muitos outros olhos. Aquele olhar eu agüentei, facilitado. Seô Habão sacudia em sim a cabeçona, surpreendido mas circunstante. — “Dou notícia... Dou notícia...”— ele quase que se lastimou. Nem sei se ele sabia com que meu padrinho Selorico Mendes fosse, como era, muito mais fornecido de renome e avultado em posses, conforme até por estes sertões do gerais se contava. Regozijei, devagar; mas não regozijei completo. Do que destapei: que um desses, com a estirpe daquele seô Habão, tirassem dele, tomassem, de repente, tudo aquilo de que era dono — e ele havia de choramingar, que nem criancinha sem mãe, e tatear, toda a vida, feito ceguinho catando no chão o cajado, feito quem esquenta mãos por cima dum fogo fumacento. A misericórdia, também, eu quase tive. Natureza da gente não cabe em nenhuma certeza. De ver o homem, em pé, diante de mim recrescer e tornar a minguar — isto tudo no meu juízo — nem sei de que estimas me esquecia e de que outras me lembrava. E, com pouco, no rebaixar do sol, ele tornou a amontar no seu cavalo gateado, belo, e se foi, de rompida, no rumo torto do Valado.
Sobre assim, aí corria no meio dos nossos um conchavo de animação, fato que ao senhor retardei: devido que mesmo um contador habilidoso não ajeita de relatar as peripécias todas de uma vez. Pois foi que o vaqueiro tal, que acompanhava o seô Habão, em conversa distraída com algum ou com outro, por acasos mencionou que um bando de uns dez homens, jagunços também pelo dito e visto, andavam parapassando, como que à espera de destino, em entreo Fazendão Felício — que é na beira da estrada-mor para esse poente todo — e o Porto velho da Remeira, no rio Paracatu — aonde, menos dia, mais dia, todo o mundo acaba vindo chegando. Depressa então falaram o assunto ciente para Zé Bebelo, que reconheceu, pela descrição: — “Chagas de Cristo! É eles, ei, egüei...Só pode que pode ser é mesmo o João Goanhá, com uns outros...” E instantâneo expediu, para lá, dois próprios, que tocassem ligeiro como sem senões e voltassem trazendo os comparsas amigos. Isso com a certa alegria se ouviu, porque eram novidades acontecendo.
Me deu saudade de algum buritizal, na ida duma vereda em capim tem-te que verde, termo da chapada. Saudades, dessas que respondem ao vento; saudade dos Gerais. O senhor vê: o remôo do vento nas palmas dos buritis todos, quando é ameaço de tempestade. Alguém esquece isso? O vento é verde. Aí, no intervalo, o senhor pega o silêncio pôe no colo. Eu sou donde eu nasci. Sou de outros lugares. Mas, lá na Guararavacã, eu estava bem.
Tanto também, fiz de conta estivesse olhando Diadorim, encarando, para duro, calado comigo, me dizer: “Nego que gosto de você, no mal. Gosto, mas só como amigo!...” Assaz mesmo me disse. De por diante, acostumei a me dizer isso, sempres vezes, quando perto de Diadorim eu estava. E eu mesmo acreditei. Ah, meu senhor! — como se o obedecer do amor não fosse sempre ao contrário... O senhor vê, nos Gerais longe: nuns lugares, encostando o ouvido no chão, se escuta barulho de fortes águas, que vão rolando debaixo da terra. O senhor dorme em sobre um rio?
Ao que não havia mais chão, nem razão, o mundo nas juntas se desgovernava.
E Zé Bebelo mesmo se cansava de falar demonstrado. Porque seô Habão, mansoso e manso, sem glória nenhuma, era um toco de pau, que não se destorce, fincado sempre para o seu arrumo. Ele só entendia de assuntos triviais, mas cuidava deles com uma força vagarosa, verdadeira, de boi-de-coice. E, no mais, nem ouvia, apesar de toda a cortesia de respeito, quando se falava em Joca Ramiro, no Hermógenes e no Ricardão, em tiroteios com os praças e na grande tomada, por quinhentos cavaleiros, da formosa cidade de São Francisco — que é a que o Rio olha com melhor amor. Daí, assim ia sendo que, mesmo sem sentir, o próprio Zé Bebelo se via principiando a ter de falar com ele em todas as pestes de gado, e nas boas leiras de vazante, no feijão-da-seca e nos arrozais cacheando, em que os passarinhos de Deus viram em a má praga. Com efeito, nos intervalos daquela dividida conversa, não sei o que Zé Bebelo sentia nem achava. Eu, digo — me disse: que um homem assim, seô Habão, era para se querer longe da gente; ou, pois, então, que logo se exigisse e deportasse. Do contrário, não tinha sincero jeito possível: porque ele era de raça tão persistente, no diverso da nossa, que somente a estância dele, em frente, já media, conferia e reprovava.
Mas, sei lá, só por um doente desejo de necessidade de ver bem se aquilo era, o certo foi que não sosseguei até poder me presenciar com ele, perto a perto, e inventar conversação. E nem custoso não me foi, porque ele passou ali com a gente muitas horas, quase que o dia todo. Dei um jeito, fazendo como se menos quisesse, e vim em fala. Seô Habão me olhou com tanta norma desusada, que eu senti minhas falsidades. E esqueci as palavras primeiras, que tinha aprontado para declarar.
— “Seô Capitão Habão...” — eu disse; e num relance eu conheci que estava também tendo de falar o p’r’ agradar.
Assim, o que dissertei foi que eu sabia do título de capitão que ele usufruía, por ter relido o diploma, na casa do Valado, que de roubos a furtos a gente do Sucruiú tinha devastado. E contei a ele que a referida patente eu tinha por cautela apanhado do chão e guardado dentro do oratório, por detrás das imagens dos santos.
Ele nem deu ar de interesse no fato, não me agradeceu por isso; perguntou nada. Disse:
— “A bexiga do Sucruiú já terminou. Estou ciente dos que morreram: foram só dezoito pessoas...”
E o que indagou foi se eu soubesse se tinham feito muitos estragos nos canaviais. — “... O que eles deixaram em pé, e que lobo ou mão-pelada não roeram, sempre há-de dar uns carros, se move moagem...” Agora ele conservava os olhos sem olhar, num vagar vago, circunspecto, pensava aqueles capítulos. Disse que ia botar os do Sucruiú para o corte da cana e fazeção de rapadura. Ao que a rapadura havia de ser para vender para eles do Sucruiú, mesmo, que depois pagavam com trabalhos redobrados. De ouvir ele acrescentar assim, com a mesma voz, sem calor nenhum, deu em mim de repente, foram umas nervosias. Ao que, aqueles do Sucruiú, fossem juntas-de-bois em canga, criaturas de toda proteção apartadas. Mas eu não tinha raiva desse seô Habão, juro ao senhor, que ele não era antipático. Eu tinha era um começo de certo desgosto, que seria meditável. — “Para o ano, se Deus quiser, boto grandes roças no Valado e aqui... O feijão, milho, muito arroz...” Ele repisava, que o que se podia estender em lavoura, lá, era um desadoro. E espiou para mim, com aqueles olhos baçosos — aí eu entendi a gana dele: que nós, Zé Bebelo, eu, Diadorim, e todos os companheiros, que a gente pudesse dar os braços, para capinar e roçar, e colher, feito jornaleiros dele. Até enjoei. Os jagunços destemidos, arriscando a vida, que nós éramos: e aquele seô Habão olhava feito o jacaré no juncal: cobiçava a gente para escravos! Nem sei se ele sabia que queria. Acho que a idéia dele não arrumava o assunto assim à certa. mas a natureza dele queria, precisava de todos como escravos. Ainda confesso declarado ao senhor: eu não tivesse raiva daquele seô Habão, porque ele era um homem que estava de mim em tão grandes distâncias. A raiva não se tem duma jibóia, porque jibóia constraga mas não tem veneno. E ele cumpria sua sina, de reduzir tudo a conteúdo. Pudesse, economizava até com o sol, com a chuva. Estava picando fumo no covo da mão, garanto ao senhor que não esperdiçava nem o átomo dumas felpas. A alegria dele era uma recontada repetição, um condescendido: vinte, trinta carros de milho, ah, os mil alqueires de arroz... Zé Bebelo, que esses projetos ouvisse, ligeiro logo era capaz de ficar cheio de influência: exclamar que assim era assim mesmo, para se transformar aquele sertão inteiro do interior, com benfeitorias, para um bom Governo, para esse ô-Brasil! Em peta, que, um seô Habão, esse não se entusiasmava. Era só os carros-de-bois carreando a cana. E ele dava ordens. Ordem que dava, havia de ser costumeira e surda, muito diferente da de jagunço. Cada pessoa, cada bicho, cada coisa obedecia. Nós íamos virando enxadeiros. Nós? Nunca! Mas, então, eu antes queria ver chegar duma vez os do Hermógenes, em galopadas e gritos, berrando rifles em todo fogo, e ái para se ouvir, e sangue para quem ver pudesse. Aí era que iam saber o que sebaceiro é! E, por um despique, foi que acertei meu correão com as armas; e pronunciei:
— “Duvidar, seô Habão, o senhor conhece meu pai, fazendeiro Senhor Coronel Selorico Mendes, do São Gregório?!”
João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas José Olympio. Rio de Janeiro. 1ª edição. 1956.
O presente livro, portanto, é o inenarrável resultado de um longo vaivém de desavenças editoriais ou, se se preferir, de interesses desencontrados entre a pretensa autenticidade intelectual de um autor “difícil” e as tensões surgidas face ao retorno “fácil” das utilidades. O mundo das publicações não escapa à mecânica do pragmatismo real, enquanto que o universo literário escapa às regras de uso da própria realidade. E dessa dificuldade, JGR gerou, efetivamente, a sua marca registrada. Apresentar uma coisa como mais fácil do que ela é, falseia a sua verdade. Rosa era um poeta-dialético e um tradutor-metódico. Porém, a ironia do seu método maiêutico, desenvolvida modelarmente no Grande Sertão: Veredas, implica que o seu interlocutor seja inaudível e a cáustica união dos contrários, sob a qual opera, que só falasse no sentido de contradições inefáveis. O pensamento socrático chegou até nós graças à tradução dos Diálogos ideados pelo seu discípulo. A obra dialógica platônica é básica na biblioteca de JGR, hoje no IEB/USP, e ele sabia que o caminho da verdade é um descaminho. Impregnado desse processo em negatividade, Riobaldo revela essa verdade às avessas: “Ah, mas falo falso. O senhor sente? Desmente? Eu desminto. Contar é muito, muito dificultoso.” (GS:V, 142) Para esse homem dos avessos que reconhece ter vivido “puxando difícil do difícel,” (GS:V, 11) trechos desconexos de pensamento filosófico articulam-se de forma concreta só quando o mais profundo substrato “poiético” (enquanto realidade essencial da fala na sua variada estratificação de discursos) está sendo atingido. Trata-se daquela insondável intertextualidade equacionada por Riobaldo: “o senhor é homem de pensar o dos outros como sendo o seu.” (GS:V, 77) Antes de mais nada, repito, JGR foi um poeta-tradutor decidido pelo seu projeto de conto crítico e não será por outros afazeres revogado. Foi fiel ao pensamento de outrora em que vai se vertendo o acontecer interiorizado dos seus contos; foi filho duma “outridade” metafísica onde a poesia vai entretecendo, em textos sobre textos, a sua crítica.
Nessa íntima camada, o elaboradíssimo trabalho poiético roseano funciona como destrinçável fio narrativo que liga os paradigmas da descontínua e criptográfica ficção onde o sintagma não tem trilha fácil. Por quê? Por que para projeto literário como este há uma prioridade. Riobaldo diz: “E o que era para ser. O que é pra ser — são as palavras.” (GS:V, 39) As interpretações sobre a matéria de que tratam os contos críticos variam tanto, de leitor a leitor, que a imagem do labirinto igualada ao deserto diz bem da sensação de extravio provocada pelo seu relato para aqueles que o indagam, ao se orientar pela vereda exclusiva da trama. Em Guimarães Rosa, não há trama; o que há, sim, é drama poiético no teatro das palavras. No ermo extravio vivido ao longo do Grande Sertão: Veredas, nada de irreparável pode acontecer à Alma do narrado. O drama vivido no sertão espiritual (como na Cidade platônica) não comporta peripécias trágicas nem mesmo desenlace, pois a palavra-do-fim retorna ao começo. Ao início iniciático, posto que a morte de Diadorim não lhe põe um termo. O pensamento de Riobaldo vive “adramado...” (GS:V, 97) pela substância da recordação que ele só pôde reduzir em palavras ou traduzir em poesia. O seu autor confessou-o ao Lorenz: “Cada palavra é, segundo sua essência, um poema.” No entanto, nessas veredas do fazer (poíesin) amalgama-se um estranho híbrido escritural: não é narrativa stricto sensu, mas também não é gênero poético. Estranho porque é — dialética e paradoxalmente — a continuidade da obra coletiva da tradição e a quebra de uma história literária muito particular.Isto é, dá-se uma poética em negativoou “desprocesso”, em cujo acontecer inverso paira uma vaga ação carente do devir corriqueiro. O alter ego em teoria literária do meu mestre, o Professor Riobaldo, explica-o nestes termos: “Só isso. O senhor sabe, se desprocede: a ação escorregada e aflita, mas sem substância narrável.” (GS:V, 106) Nesse estado religante — e portanto transcendental, colocando o jagunço em estreita relação com Deus —, o conteúdo do que ele diz opera, ao modo da Escritura, como texto absoluto e impenetrável à contingência; isto é, à narrativa. Apresentam-se, sob forma dramática, isso sim, os conflitos infindáveis surgidos para Riobaldo nos confins da fé — ou seja, na sua aliança profundíssima com Maria / Deodorina / da Fé / Bittencourt / Marins.
Héctor Olea
O Professor Riobaldo:
um novo místico da poetagem
Ateliê Editorial / Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes.
Mas, com seus modos guerreiros, Zé Bebelo abriu um gesto, à fidalgamente, nem deixando o outro estipular:
— “Ah, isso não, patrício meu amigo, he, mas absolutamente! A gente não é gente da desordem... E favor, de sobra, nós já devemos ao senhor — pela pousada em suas terras e pelas cabeças de gado de sua posse, que temos carneado, por precisão de sustento...”
O homem depressa pronunciou que tinha prazer naquilo, que sua boiada toda estava às ordens; mas, como por uma regra, perguntou assim mesmo quantas cabeças, mais ou menos, a gente já tinha consumido. Assim ele dava balanço, inquiria, e espiava gerente para tudo, como se até do céu, e do vento suão, homem carecesse de cuidar comercial. Eu pensei: enquanto aquele homem vivesse, a gente sabia que o mundo não se acabava. E ele era sertanejo? Sobre minha surpresa, que era. Serras que se vão saindo, para destapar outras serras. Tem de todas as coisas. Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas.
Fiquei notando. Em como Zé Bebelo aos poucos mais proseava, com ensejos de ir mostrando a valia declarada que tinha, de jagunço chefe famoso; e daí, sutil, se reconhecia da parte dele um certo desejo de agradar ao outro. Por causa que o outro era diferido, composto em outra séria qualidade de preocupações. E seô Habão, que escutava com respeito, devagarzinho pegava a fazer perguntas, com a idéia na lavoura, nos trabalhos perdidos daquele ano, por desando das chuvas temporãs e do sol grave, e das doenças sucedidas. O que me dava a qual inquietação, que era de ver: conheci que fazendeiro-mor é sujeito da terra definitivo, mas que jagunço não passa de ser homem muito provisório.
Sem que bem se saiba, conseguiu-se rastrear pelo avesso um caso de vida e de morte, extraordinariamente comum, que se armou com o enxadeiro Pedro Orósio (também acudindo por Pedrão Chãbergo ou Pê-Boi, de alcunha) e teve aparente princípio e fim, num julho-agosto, nos fundos do município onde ele residia; em sua raia noroesteã, para dizer com rigor.
Desde ali, o ocre da estrada, como de costume, é um S, que começa grande frase. E iam, serra-acima, cinco homens, pelo espigão divisor. Dia a muito menos de meio, solene sol, as sombras deles davam para o lado esquerdo.
Debaixo de ordem. De guiador — a pé, descalço — Pedro Orósio: moço, a nuca bem feita, graúda membradura; e marcadamente erguido: nem lhe faltavam cinco centímetros para ter um talhe de gigante, capaz de cravar de engolpe em qualquer terreno uma acha de aroeira, de estalar a quatro em cruz os ossos da cabeça de um marruás, com um soco em sua cabeloura, e de levantar do chão um jumento arreado, carregando-o nos braços por meio quilômetro, esquivando-se de seus coices e mordidas, e sem nem por isso afrouxar do fôlego de ar que Deus empresta a todos.
Seguindo-o, a cavalo, três patrões, entrajados e de limpo aspecto, gente de pessoa. Um, de fora, a quem tratavam por seo Alquiste ou Olquiste — espigo, alemão-rana, com raro cabelim barba-de-milho e cara de barata descascada. O sol faiscava-lhe nos aros dos óculos, mas, tirados os óculos, de grossas lentes, seus olhos se amaciavam num aguado azul, inocente e terno, que até por si semblava rir, aos poucos se acostumando com a forte luz daqueles altos. Calçava botas cor de chocolate, de um novo feitio; por cima da roupa clara, vestia guarda-pó de linho, para verde; traspassava a tiracol as correias da codaque e do binóculo; na cabeça um chapéu-de-palha de abas demais de largas, arranjado ali na roça. Enxacoco e desguisado nos usos, a tudo quanto enxergava dava um mesmo engraçado valor: fosse uma pedrinha, uma pedra, um cipó, uma terra de barranco, um passarinho atoa, uma moita de carrapicho, um ninhol de vespos.
Segundo, um frade louro — frei Sinfrão — desses de sandália sem meia e túnica marrom, que têm casa de convento em Pirapora e Cordisburgo. Também trazia, sobre o hábito, um guarda-pó, creme; e punha chapéu branco, de pano mole. Relia o breviário, assim mesmo montado, e fumava charuto. Falava completo a língua da gente, porém sotaqueava.
Com eles, seo Jujuca do Açude, fazendeiro de gado, e filho de fazendeiro, de seu Juca Vieira, com apelido seu Juca do Açude, da Fazenda do Açude, para lá atrás do Saco do Sãjoão.
Derradeiro, outro camarada — a cavalo esse, e tangendo os burros cargueiros —: um Ivo, Ivo de Tal, Ivo da Tia Merência.
De seu, o guia Pedro Orósio preferisse mesmo viajar a pé, ou talvez, culpa de seu tamanho, nem acharia cavalgadura que lhe assentasse. Mas ele era um sete-pernas. Abrindo passo muito extenso e ligeiro, e, tão forçoso, de corpo nunca se cansava. Por mais, aqueles ali não estavam apurados, iam jornada vagarosa. O louraça, seo Alquiste, parecia querer remedir cada palmo de lugar, ver apalpado as grutas, os sumidouros, as plantas do caatingal e do mato. Por causa, esbarravam a toda hora, se apeavam, meio desertavam desbandando da estrada-mestra.
João Guimarães Rosa O Recado do Morro em Corpo de Baile II José Olympio. Rio de janeiro. 1ª edição. 1956.
E se deu que chegaram lá dois homens, quando não se esperava, um deles se vendo que sendo patrão, e o outro algum vaqueiro de seu serviço. Aí logo se soube: era o dono daqueles lugares, do retiro do Valado, principalmente; e ele, conforme já disse, seô Habão se chamava. Ali, quando dei fé, ele já tinha se apeado; estava curvado para o chão, mas seguro com a mão esquerda na rédea de seu cavalo. Era um homem de boa idade, vestido com brim azul encorpado escuro, e calçando pretas botas joelhudas. Quando levantou o olhar, outra vez, notei que tinha boa catadura. Mas o cavalo — esse me entusiasmou: era um animal gateado, grande, com imponência e todo brio, de rabejo vasto; e mais tarde o senhor verá o que ele era; cavalo de cara alta, de beiço mole, cavalo que debruça bem e que em poço bebia remolhando a testa. Ele sabia olhar redor-mirado a gente, com simpatias ou com desprezos, e respirava para dentro dos peitos a maior quantidade de ar que desejava, por quantas ventas tão largas ele tinha. Bem, dele depois lhe conto.
Seô Habão estava conversando com Zé Bebelo. Admirei a noção dele: que era uma calma muito sensata e firmada, junto com um miúdo comportamento. E vigiava os traços simples do arredor, não perdendo azo de reparar em todas as coisas, como era que estavam em que pé. Olhares de dono — o senhor sabe. E assim foi que ele declarou a Zé Bebelo que, na ocasião, estava desprevenido, não transportava consigo o dinheiro razoável. Mas que, se a gente desse a ele o gosto de seguirmos até à verdadeira sua fazenda-grande que possuía, na vertente do Resplandor, dali a umas vinte léguas de lonjura, ele havia de fornecer ademais um auxílio, em espórtulas. E ele falou aquilo com tantas sinceras medidas a gente se capacitando do profundo que o dinheiro para ele devia de ter valor. Por aí, vi que ele era adiantado e sagaz. Porque: ema, no chapadão, é a primeira que ouve e se sacode e corre — e mesmo em quando tenha razão.
Dormi, deitado num pelego. Quando a gente dorme, vira de tudo, vira pedras, vira flor. O que sinto, e esforço em dizer ao senhor, repondo minhas lembranças, não consigo; por tanto é que refiro tudo nestas fantasias. Mas eu estava dormindo era para reconfirmar minha sorte. Hoje, sei. E sei que em cada virada de campo, e debaixo de sombra de cada árvore, está dia e noite um diabo, que não dá movimento, tomando conta. Um que é o romãozinho, é um diabo menino, que corre adiante da gente, alumiando com lanterninha, em o meio certo do sono. Dormi, nos ventos. Quando acordei, não cri: tudo o que é bonito é absurdo — Deus estável. Ouro e prata que Diadorim aparecia ali, a uns dois passos de mim, me vigiava.
E, digo ao senhor como foi que eu gostava de Diadorim: que foi que, em hora nenhuma, vez nenhuma, eu nunca tive vontade de rir dele.
Será que tem um ponto certo, dele a gente não podendo mais voltar para trás? Travessia de minha vida. Guararavacã — o senhor veja, o senhor escreva. As grandes coisas, antes de acontecerem.
Vejo que o senhor não riu, mesmo em tendo vontade. Também tive. Ah, hoje, ah — tomara eu ter! Rir, antes da hora, engasga. E eu me enviava pelo sério. Uma precisão eu encarecia: aí, de sopesar minhas seguidas forças, como quem pula a largura dum barranco, como quem saca sua faca para relumiar.
E veio mesmo outra manhã, sem assunto, eu decidi comigo: — É hoje... Mas dessa vez eu ainda remudei. Sem motivo para sim, sem motivo para não. Delonguei, deveras. Não é que, não foi de medo. Nem eu cria que, no passo daquilo, pudesse se dar alguma visão. O que eu tinha, por mim — só a invenção de coragem. Alguma coisice por principiar. O que algum tivesse feito, por que era que eu não ia poder? E o mais — é peta! — nonada. Do Tristonho vir negociar nas trevas de encruzilhadas, na morte das horas, soforma dalgum bicho de pêlo escuro, por entre chorinhos e estados austeros, e daí erguido sujeito diante de homem, e se representando, canhim, beiçudo, manquinho, por cima dos pés de bode, balançando chapéu vermelho emplumado, medonho como exigia documento com sangue vivo assinado, e como se despedia, depois, no estrondo e forte enxofre. Eu não acreditava, mesmo quando estremecia. T’arreneguei.
Com isso, o tempo mais parava. Também, fazia mais de mês que a gente estava naquela tapera de retiro, cujo a Coruja era que era o nome, por um desses impossíveis de Zé Bebelo. Ao que mais foi que aconteceu ali? Bem, passa um bando de papagaios, o senhor pensa que eles levaram de sua pessoa alguma diversão. Mas os papagaios estão voando já longe, e o rumor deles, conforme o vento, faz que nem estivessem retornando. Diadorim, esse, nunca teve instante desiludido. Sempre eu gostava muito dele. Só que não falasse; por aquele tempo eu quase não abria boca para conversação.
João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas José Olympio. Rio de Janeiro. 1ª edição. 1956.
Em 1846, Gonçalves Dias publicava os Primeiros Cantos, sua obra de estréia, saudada como acontecimento extraordinário, primeira grande obra da poesia romântica no Brasil. E, em obras subseqüentes, expande suas inovações estilísticas, intensificando o uso de tupinismos e fazendo a experiência de reviver a língua de séculos passados (Sextilhas de Frei Antão). Por curiosa coincidência, precisamente um século depois, Guimarães Rosa inicia sua obra marcada por admirável experimentalismo, estreando com Sagarana, título que já prenuncia o destemido inovador da língua. O livro é também imediatamente recebido com vivo entusiasmo pela crítica. No artigo “Uma Grande Estréia”, Álvaro Lins assinala o “excepcional acontecimento” e manifesta incontida admiração — o que não era do seu feitio — dizendo tratar-se de “uma grande obra que amplia o território cultural de uma literatura, que lhe acrescenta alguma coisa de novo e insubstituível” (Guimarães Rosa, Fortuna Crítica).
Depois desse empolgante sucesso, GR não comparece na cena literária por dez anos e, em 1956, ressurge com duas obras monumentais: Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas em que leva muito avante a sua elaboração de um estilo arrojado e único. Novo intervalo, mais breve, e em 1962 aparece o escritor com nova obra e novo gênero, Primeiras Estórias, coletânea de 21 estórias de extensão variada, mas predominantemente curtas. As estórias vão-se tornar ainda mais concisas na última obra publicada em sua vida, Tutaméia (Terceiras Estórias), de 1967, também cheia de surpresas e de intenso trabalho estilístico. Com a responsabilidade de Paulo Rónai, saem, sempre pela Editora José Olympio, em 1969, Estas Estórias e, em 1970, Ave, Palavra.
Dado o reconhecimento da fenomenal importância da obra de GR, a sua bibliografia passiva cresce incessantemente. Estudiosos os mais diversos têm-se empenhado em iluminar os inumeráveis aspectos dos seus textos, em decifrar os mistérios neles encerrados. Como ressalta a ensaísta Edna Tarabori Calobrezi, na sua brilhante tese defendida em setembro de 1998 — que ora temos como livro e que tenho a honra de apresentar — o que aliás é de todo desnecessário — o volume Estas Estórias, embora tivesse alguns dos seus textos focalizados em excelentes artigos, como os de Fernando Py, Haroldo de Campos, Walnice Galvão, Flávio Aguiar, Irene Simões e outros, não tinha merecido ainda um estudo de maior abrangência. Daí sentir ela o desafio de enfrentar as dificuldades dessas estórias, de examiná-las quanto a uma temática que nelas se encontra bem-acentuada e que ainda não fora abordada: a da morte e a da alteridade. E para elaborar esse admirável trabalho buscou apoio na psicanálise e debruçou-se sobre as obras de Freud, que aproveita com moderação, sem nenhum pedantismo, sem qualquer pretensão doutrinária. É também impressionante a extensão de suas outras leituras, de crítica literária, de estudos sociológicos, sem falar das demais obras do escritor, que, mesmo não sendo o objetivo do seu estudo, são citadas muito a propósito, quando se torna conveniente estabelecer uma relação esclarecedora.
Logo no sumário, chama a atenção a bela intitulação dos capítulos, em parte extraída dos próprios textos estudados, a qual já desperta o interesse do leitor. Sirvam de exemplos: “Entre a Vida e a Morte o Narrar”, “A Força da Palavra”, “Os Labirintos do Viver”, “’Desinvertendo’ a Vida”, “O Despertar da Morte”, “Amor ao Pé da Parca”, “A Morte Glosando a Vida”, “Eros Sobrepuja Tânatos: Vence o Amor”, “O Absurdo do Possível”.
Mas em tanto, com as mudanças e peripécias, no afinco de tudo lhe referir, ditas conforme digo — não toco no nome de Otacília? Nela eu queria pensar, na ocasião; mas mal que, cada vez, achava mais custoso. A ser que se nublando a sustância da recordação, a esquecida formosura. Assim a nossa conversação de amor, lá na Santa Catarina, não consistisse mais do que em uma estória alheia, escutada de outra pessoa contar. Sei que eu queria uma saudade. Para isso rezei, a todas as minhas Nossas Senhoras Sertanejas. Mas rebotei de lado aquelas orações, na água fina e no ar dos ventos. Elas, era feito eu lavrasse falso, não me davam nenhuma cortesia. Só um vexame, de minha extração e da minha pessoa: a certeza de que o pai dela nunca havia de conceder o casamento, nem tolerar meu remarcado de jagunço, entalado na perdição, sem honradez costumeira. As quantias por paga! O senhor entende, o que conto assim é resumo; pois, no estado do viver, as coisas vão enqueridas com muita astúcia: um dia é todo para a esperança, o seguinte para a desconsolação. Mas eu achei, aí, a possibilidade capaz, a razão. A razão maior, era uma. O senhor não quer, o senhor não está querendo saber?
Aquilo, que eu ainda não tinha sido capaz de executar. Aquilo, para satisfazer honra de minha opinião, somente que fosse. — “Ah, qualquer dia destes, qualquer hora...” — era como eu me aprazava. O dum dia, duma noite. Duma meia-noite. Só para confirmar constância da minha decisão, pois digo, acertar aquela fraqueza. Ao que, alguma espécie aquilo continha? Na verdade real do Arrenegado, a célebre aparição, eu não cria. Nem. E, agora, com isto, que falei, já está ciente o senhor? Aquilo, o resto... Aquilo — era eu ir à meia-noite, na encruzilhada, esperar o Maligno — fechar o trato, fazer o pacto!
João era fabulista fabuloso fábula? Sertão místico disparando no exílio da linguagem comum?
Projetava na gravatinha a quinta face das coisas inenarrável narrada? Um estranho chamado João para disfarçar, para farçar o que não ousamos compreender? Tinha pastos, buritis plantados no apartamento? no peito? Vegetal ele era ou passarinho sob a robusta ossatura com pinta de boi risonho?
Era um teatro e todos os artistas no mesmo papel, ciranda multívoca? João era tudo? tudo escondido, florindo como flor é flor, mesmo não semeada? Mapa com acidentes deslizando para fora, falando? Guardava rios no bolso cada qual em sua cor de suas águas? sem misturar, sem conflitar? e de cada gota redigia nome, curva, fim, e no destinado geral seu fado era saber para contar sem desnudar o que não deve ser desnudado e por isso se veste de véus novos? Mágico sem apetrechos, civilmente mágico, apelador de precípites prodígios acudindo a chamado geral? Embaixador do reino que há por trás dos reinos, dos poderes, das supostas fórmulas de abracadabra, sésamo? Reino cercado não de muros, chaves, códigos, mas o reino-reino? Por que João sorria se lhe perguntavam que mistério é esse?
E propondo desenhos figurava menos a resposta que outra questão ao perguntante? Tinha parte com... (não sei o nome) ou ele mesmo era a parte de gente servindo de ponte entre o sub e o sobre que se arcabuzeiam de antes do princípio, que se entrelaçam para melhor guerra, para maior festa?
Ficamos sem saber o que era João e se João existiu de se pegar.
Carlos Drummond de Andrade publicado no Correio da Manhã (RJ) em 22.11.1967, três dias após a morte de Guimarães Rosa.
Às parlendas, bobéia. O medo, que todos acabavam tendo do Hermógenes, era que gerava essas estórias, o quanto famanava. O fato fazia fato. Mas, no existir dessa gente do sertão, então não houvesse, por bem dizer, um homem mais homem? Os outros, o resto, essas criaturas. Só o Hermógenes, arrenegado, senhoraço, destemido. Rúim, mas inteirado, legítimo, para toda certeza, a maldade pura. Ele, de tudo tinha sido capaz, até de acabar com Joca Ramiro, em tantas alturas. Assim eu discerni, sorrateiro, muito estudantemente. Nem birra nem agarre eu não estava acautelando. Em tudo reconheci: que o Hermógenes era grande destacado daquele porte, igual ao pico do serro do Itambé, quando se vê quando se vem da banda da Mãe-dos-Homens — surgido alto nas nuvens nos horizontes. Até amigo meu pudesse mesmo ser; um homem, que havia. Mas Diadorim era quem estava certo: o acontecimento que se carecia era de terminar com um. Diadorim, o Reinaldo, me lembrei dele como menino, com a roupinha nova e o chapéu novo de couro, guiando meu ânimo para se aventurar a travessia do Rio do Chico, na canoa afundadeira. Esse menino, e eu, é que éramos destinados para dar cabo do filho do Demo, do Pactário! O que era o direito, que se tinha. O que eu pensei, deu de ser assim.
Aí, o povo quis amparar Nhô Augusto, que punha sangue por todas as partes, até do nariz e da boca, e que devia de estar pesando demais, de tanto chumbo e bala. Mas tinha fogo nos olhos de gato-do-mato, e o busto, especado, não vergava para o chão.
— Espera aí, minha gente, ajudem o meu parente ali, que vai morrer mais primeiro... Depois, então, eu posso me deitar.
— Estou no quase, mano velho... Morro, mas morro na faca do homem mais maneiro de junta e de mais coragem que eu já conheci!... Eu sempre lhe disse quem era bom mesmo, mano velho... É só assim que gente como eu tem licença de morrer... Quero acabar sendo amigos...
— Feito, meu parente, seu Joãozinho Bem-Bem. Mas, agora, se arrepende dos pecados, e morre logo como um cristão, que é para a gente poder ir juntos...
Mas, seu Joãozinho Bem-Bem, quando respirava, as rodilhas dos intestinos subiam e desciam. Pegou a gemer. Estava no estorcer do fim. E, como teimava em conversar, apressou ainda mais a despedida. E foi mesmo.
Alguém gritou: — “Eh, seu Joãozinho Bem-Bem já bateu com o rabo na cerca! Não tem mais!”... — E então Nhô Augusto se bambeou nas pernas, e deixou que o carregassem.
— P’ra dentro de casa, não, minha gente. Quero me acabar no solto, olhando o céu, e no claro... Quero é que um de vocês chame um padre... Pede para ele vir me abençoando pelo caminho, que senão é capaz de não me achar mais...
E riu.
E o povo, enquanto isso, dizia: — “Foi Deus quem mandou esse homem no jumento, por mor de salvar as famílias da gente!...” E a turba começou a querer desfeitear o cadáver de seu Joãozinho Bem-Bem, todos cantando uma cantiga que qualquer-um estava inventando na horinha:
Não me mata, não me mata, seu Joãozinho Bem-Bem! Você não presta mais pra nada, seu Joãozinho Bem-Bem!...
Nhô Augusto falou, enérgico:
— Pára com essa matinada, cambada de gente herege!... E depois enterrem bem direitinho o corpo, com muito respeito e em chão sagrado, que esse aí é o meu parente seu Joãozinho Bem-Bem!
E o velho choroso exclamava:
— Traz meus filhos, para agradecerem a ele, para beijarem os pés dele!... Não deixem este santo morrer assim... P’ra que foi que foram inventar arma de fogo, meu Deus?!...
Mas Nhô Augusto tinha o rosto radiante, e falou:
— Perguntem quem é aí que algum dia já ouviu falar no nome de Nhô Augusto Esteves, das Pindaíbas!
— Virgem Santa! Eu logo vi que só podia ser você, meu primo Nhô Augusto...
Era o João Lomba, conhecido velho e meio parente. Nhô Augusto riu:
— E hein, hein João?!
— P’ra ver...
Então, Augusto Matraga fechou um pouco os olhos, com sorriso intenso nos lábios lambuzados de sangue, e de seu rosto subia um sagaz contentamento.
Daí, mais, olhou, procurando João Lomba, e disse, agora sussurrado, sumido:
— Põe a benção na minha filha... seja lá onde for que ela esteja... E, Dionora... Fala com a Dionora que está tudo em ordem!
Depois, morreu.
João Guimarães Rosa A Hora e Vez de Augusto Matraga em Sagarana José Olympio. Rio de Janeiro. 5ª edição, retocada, forma definitiva. 1958.
Hermógenes Saranhó Rodrigue Felipes — como ele se chamava; hoje, neste sertão, todo o mundo sabe, até em escritos no jornal já saiu nome dele. Mas quem me instruiu disso, na ocasião, foi o Lacrau, aquele que à custa de riscos conseguira nos Tucanos se baldear para o meio de nós, consoante relatei. A ele dei de perguntar, ao mau respeito, muitas coisas. Assaz de contente, ele me respondia. Se era verdade, o que se contava? Pois era — o Lacrau me confirmou — o Hermógenes era positivo pactário. Desde todo o tempo, se tinha sabido daquilo. A terra dele, não se tinha noção qual era; mas redito que possuía gados e fazendas, para lá do alto Carinhanha, e no Rio do Borá, e no Rio das Fêmeas, nos gerais da Bahia. E, veja, por que sinais se conhecia em favor dele a arte do Coisa-Má, com tamanha proteção? Ah, pois porque ele não sofria nem se cansava, nunca perdia nem adoecia; e, o que queria, arrumava, tudo; sendo que, no fim de qualquer aperto, sempre sobrevinha para corrigimento alguma revirada, no instinto derradeiro. E como era a razão desse segredo? — “Ah, que essas coisas são por um prazo... Assinou a alma em pagamento. Ora, o que é que vale? Que é que a gente faz com alma?...” O Lacrau se ria, só por acento. Ele me dizia que a natureza do Hermógenes demudava, não favorecendo que ele tivesse pena de ninguém, nem respeitasse honestidade neste mundo. — “Pra matar, ele foi sempre muito pontual... Se diz. O que é porque o Cujo rebatizou a cabeça dele com sangue certo: que foi o de um homem são e justo, sangrado sem razão...” Mas a valência que ele achava era despropositada de enorme, medonha mais forte que a de reza-brava, muito mais própria do que a de fechamento-de-corpo. Pactário ele era, se avezando por cima de todos. — “Você, que não cede nenhum valor à alma, você, Lacrau, era capaz de fechar desse pacto?” — eu indaguei. — “Ah, não, mano, quero lá não navegar por detrás das coisas... Coragem minha é para se remedir contra homem levado feito eu, não é para marcar a meia-noite nessas encruzilhadas, enfrentar a Figura...” Calado, considerei comigo. Esse Lacrau tirava a sensatez da insensatez. Outras informações ele disse. O senhor não é como eu? Sem crer, cri.
Lugar perto da Guararavacã do Guaicuí: Tapera Nhã, nome que chamava-se. Ali era bom? Sossegava. Mas, tem horas em que me pergunto: se melhor não seja a gente tivesse de sair nunca do sertão. Ali era bonito, sim senhor. Não se tinha perigos em vista, não se carecia de fazer nada.
Dormi, sestas inteiras, por minha vida. Gavião dava gritos, até o dia muito se esquentar. Aí então aquelas fileiras de reses caminhavam para a beira do rio, enchiam a praia, parados, ou refrescavam dentro d’água. Às vezes chegavam a nado até em cima duma ilha comprida, onde o capim era lindo verdejo. O que é de paz, cresce por si: de ouvir boi berrando à forra, me vinha idéia de tudo só ser o passado no futuro. Imaginei esses sonhos. Me lembrei do não-saber. E eu não tinha notícia de ninguém, de coisa nenhuma deste mundo — o senhor pode raciocinar.
Eu queria uma mulher, qualquer. Tem trechos em que a vida amolece a gente, tanto, que até um referver de mau desejo, no meio da quebreira, serve como benefício.
A verdade dessa menção, num instante eu achei e completei: e quantas outras doideiras assim haviam de estar regendo o costume da vida da gente, e eu não era capaz de acertar com elas todas, de uma vez! Aí, para mim — que não tenho rebuço em declarar isto ao senhor — parecia que era só eu quem tinha responsabilidade séria neste mundo; confiança eu mais não depositava, em ninguém. Ah, o que eu agradecia a Deus era ter me emprestado essas vantagens, de ser atirador, por isso me respeitavam. Mas eu ficava imaginando: se fosse eu tivesse tido sina outra, sendo só um coitado morador, em povoado qualquer, sujeito à instância dessa jagunçada? A ver, então, aqueles que agorinha eram meus companheiros, podiam chegar lá, façanhosos, avançar em mim, cometer ruindades. Então? Mas, se isso sendo assim possível, como era pois que agora eles podiam estar meus amigos?! O senhor releve o tanto dizer, mas assim foi que eu pensei, e pensei ligeiro. Ah, eu só queria era ter nascido em cidades, feito o senhor, para poder ser instruído e inteligente! E tudo conto, como está dito. Não gosto de me esquecer de coisa nenhuma. Esquecer, para mim, é quase igual a perder dinheiro.
Ateado no que pensei, eu sem querer disse alto: — “...Só o demo...” E: — “Uém?...” — um deles, espantado, me indagou. Aí, teimei e inteirei: — “Só o Que-Não-Fala, o Que-Não-Ri, o Muito-Sério — o cão extremo!” Eles acharam divertido. Algum fez o pelo-sinal. Eu também. Mas Diadorim, que quando ferrava não largava, falou: — “O inimigo é o Hermógenes.”
Disse, me olhou. Seja, fosse, para agradar o meu espírito. Arte de docemente, o que eu não pensei, o que eu reproduzi, firme:
— “Que sim, certo! O inimigo é o Hermógenes...”
Vigiei Diadorim; ele levantou a cara. Vi como é que olhos podem. Diadorim tinha uma luz. Reponho: em tanto já estava noitinha, escurecendo; aquela escuridão queria mandar os outros embora. O que Diadorim reslumbrava, me lembro de hei-de me lembrar, enquanto Deus dura. Mas, entre nós dois, sem ninguém saber, nem nós mesmos no exato, o que a gente acabava de fazer, entestando nos fundos, definitivamente por morte, era o julgamento do Hermógenes.
João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas José Olympio. Rio de Janeiro. 1ª edição. 1956.
... toda ação principia mesmo é por uma palavra pensada.
Grande Sertão: Veredas.
... para cada dia, e cada hora, só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa. Aquilo está no encoberto; mas, fora dessa conseqüência, tudo o que eu fizer, o que o senhor fizer, o que o beltrano fizer, o que todo-o-mundo fizer, ou deixar de fazer, fica sendo falso, e é errado.
Grande Sertão: Veredas.
ACONTECER
... as coisas que acontecem, é porque já estavam ficadas prontas, noutro ar, no sabugo da unha; e com efeito tudo é grátis quando sucede, no reles do momento.
Grande Sertão: Veredas.
Tudo, o que acontece, é contra a gente.
“Sota e Barla”, Tutaméia.
ÁGUA
Perto de muita água, tudo é feliz.
Grande Sertão: Veredas.
A água... grita a qualquer pancada que lhe dão.
“A Estória de Lélio e Lina”, Corpo de Baile.
Toda água é antediluviana.
“Hiato”, Tutaméia.
AJUNTAR
Quem é que ajunta, no escuro, o que no claro vai aparecer?
“A Estória do Homem do Pinguelo”, Estas Estórias
ALEGRIA
... a alegria não é sem seus próprios perigos.
“Vida Ensinada”, Tutaméia.
ALMA
Sua alma, sua calma.
“Dão-Lalalão”, Corpo de Baile.
A alma insuflada no barro não cessa de trabalhar seu invólucro, numa tremenda operação química.
“Do Diário em Paris”, Ave, Palavra.
AMAR
... pensar na pessoa que se ama, é como querer ficar à beira d’água esperando que o riacho, alguma hora, pousoso esbarre de correr.
Grande Sertão: Veredas
... quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca de verdade.
Grande Sertão: Veredas.
... amar não é verbo; é luz lembrada.
“João Porém, o Criador de Perus”, Tutaméia.
Amar é querer se unir a uma pessoa futura, única, a mesma do passado?
“Quadrinho de Estória”, Tutaméia.
... mais vale quem a amar madruga, do que quem outro verbo conjuga.
“Se eu seria Personagem”, Tutaméia.
AMIGO
... no sistema de jagunços, amigo era o braço, e o aço!
Grande Sertão: Veredas.
Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou — amigo — é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por que é que é.